O Trauma Espiritual 

O abuso espiritual ainda é um tema pouco discutido tanto no campo religioso quanto no psicológico no Brasil. Esse cenário começou a mudar com a publicação do livro de Gabriel Perissé, “O Abuso Espiritual: A Manipulação Invisível”, que apresenta um retrato desse fenômeno. Em nosso blog, abordamos o assunto no artigo “O Abuso Espiritual”, no qual destacamos elementos fundamentais para a compreensão do processo que caracteriza esse tipo de violência.

O Abuso Espiritual 

O abuso espiritual é compreendido como uma violência que dentro de um contexto mediado pela vivência da fé. Isto é, 

“existe abuso espiritual quando alguém se prevalece de sua posição ou de sua autoridade religiosa para dominar e manipular outra pessoa. (…)  uma forma de violação feita em nome de Deus e de Cristo, ferindo o crente no mais profundo de sua alma”. (PERISSÉ, 2024, p.11)

O abusador utiliza sua posição de poder no sistema religioso, a vulnerabilidade da vítima e a crença na espiritualidade para validar seus ataques e exercer controle. Esse é um ponto fundamental, pois é por meio do abuso espiritual que “abrem-se as portas para todos os demais abusos” (ibid., p. 21).

O abuso espiritual caracteriza-se pelo uso de crenças, textos sagrados ou dogmas para subjugar a autonomia psicológica e moral do fiel. Ocorre frequentemente quando o líder impõe a ideia de pecado para calar críticas, alega ter um canal direto com a vontade divina (“Deus me mandou te dizer isso”) ou intervém em decisões civis (como voto e casamento), favorecendo o controle e a manutenção do poder do abusador. Essa prática costuma ser extremamente sutil por estar entremeada ao corpo doutrinário de sistemas mais rígidos. Contudo, com frequência, o abuso espiritual desdobra-se em outras formas de violência, destacando-se três principais:

  • O abuso sexual ocorre mediante a instrumentalização da transferência desenvolvida no aconselhamento pastoral ou pela coerção sob o pretexto de ritos de cura e libertação, bem como pela exploração da confiança de pais e comunidades nos casos de abuso contra crianças e adolescentes.
  • O abuso psicológico e emocional envolve a desestruturação da personalidade da vítima, a indução sistemática de culpa patológica e a dependência em relação ao líder e ao sistema abusador. Ocorre frequentemente como gaslighting espiritual, levando a vítima a dúvidas sobre seus próprios julgamentos, ao isolamento de laços familiares e amizades externas, e ao medo de humilhação pública no altar ou de exclusão social em assembleia.
  • O abuso financeiro e patrimonial consiste na exploração de recursos econômicos sem o consentimento esclarecido da vítima, operada por meio de ameaças sobrenaturais ou coerção ideológica. Em outras palavras, recorre-se à chantagem espiritual sobre dízimos e bens (com promessas de bençãos e maldição em caso de recusa), à apropriação indevida de heranças e imóveis, ou à exploração de trabalho voluntário em benefício pessoal.

Assim, no Brasil, o abusador costuma responder à Justiça apenas quando comete abuso sexual ou estelionato espiritual. Contudo, a grande maioria dos abusos permanece sem identificação, mantendo as vítimas sujeitas a anos de violência e sem conseguir nomear o que vivenciaram — mesmo após se afastarem do abusador —, justamente pela falta de debate sobre o abuso espiritual em nosso país.

O Trauma Espiritual

Para muitas pessoas, o sofrimento não termina ao sair de um sistema abusivo, pois as feridas podem ser mais profundas, caracterizando um trauma. Donald Kalsched, importante analista junguiano no campo do trauma, afirmou que

Quando usamos a palavra “trauma”, estamos nos referindo a alguma experiência aguda ou acumulativa que nos “despedaça”. Este despedaçamento é tanto um evento exterior que nos choca quanto um evento interior que chamamos de dissociação” (KALSCHED in STEIN, 2019, p. 442)

É importante compreender que o abuso espiritual se refere ao trauma externo acumulativo, isto é, associado as ações, manipulações ou tratamentos impróprios ocorridos em contexto religioso durante um longo período (ou de forma aguda, na violência sexual) afetaram a vitima. O abuso espiritual acumulativo caracteriza-se para as microviolências que, pela continuidade e frequência, despedaçam a segurança, a autoimagem e a agência do indivíduo.

O caráter acumulativo dessa vivência torna o processo abusivo silencioso e altamente corrosivo para a personalidade. Ele se assemelha ao trauma infantil acumulativo resultante de negligência afetiva, cobranças e críticas sistemáticas para as quais o ego não possui capacidade defensiva, prejudicando o desenvolvimento da personalidade, assim não há um evento traumático único e delimitado, mas sim o acúmulo de microviolências e suas consequências a longo prazo.  Outro ponto análogo reside na confiança depositada no abusador, elemento que torna essa violência ainda mais perversa. A vítima, por confiar no líder espiritual, reduz suas defesas e expõe sua vulnerabilidade.

Assim, o trauma espiritual é a consequência mais grave do abuso espiritual.

A fenomenologia do trauma espiritual. 

Embora não haja um consenso ou uma classificação padronizada para a clínica do trauma espiritual — também referido como “síndrome do trauma religioso” —, é relevante apresentar a multiplicidade de suas manifestações a partir da perspectiva de diferentes autores sobre o tema.

Cashwell e Swindle(2018) categorizam as manifestações a partir do impacto da instrumentação do sagrado no abuso, assim os quadros sintomáticos vivenciados pelo indivíduo enfatizando a relação com a religiosidade, que  seriam categorizados como:

  • Trauma de Traição e Impotência: Sensação de manipulação espiritual, perda de controle pessoal e quebra de confiança (betrayal trauma)
  • Luto e Crise Existencial: Sentimentos de rejeição familiar, perda da identidade – espiritual, isolamento comunitário e desorientação existencial profunda
  • Desvalorização: Sentimento de inutilidade (priorização de regras institucionais sobre o bem-estar humano) e confusão doutrinária.
  • Comorbidades Clínicas: Intersecção do dano espiritual com TEPT, depressão maior e transtornos de ansiedade. Os autores indicam a escala Spiritual Harm and Abuse Scale – SHAS)

O autor Booth(1991), que é um reverendo episcopal, faz uma analogia do trauma espiritual com o modelo da dependência e adicção, traçando uma etiologia sintomática dividida em fases progressivas que são:

  • Sintomas Cognitivos: Inabilidade de duvidar ou questionar a autoridade/informação, pensamento simplista e raciocínio mágico de que “Deus resolverá tudo”
  • Comportamentos de Uso (Mecanismos Compulsivos): Oração compulsiva, ida obsessiva a templos/cruzadas, citação incessante de escrituras como anestésico emocional, escrupulosidade moral e doações financeiras desmedidas que geram ruína econômica
  • Sintomas Psicossomáticos: Dores crônicas nas costas, cefaleias, hipertensão, insônia, fadiga e transtornos alimentares/jejuns excessivos ou automutilação como punição da culpa
  • Estágio Avançado e Ruptura: Afastamento progressivo do mundo real, estados de transe , delírios de receber mensagens diretas de Deus e colapso físico, emocional e mental com necessidade de internação

Os autores Linn, M., Linn, S. F., & Linn, D. (1994) estruturam os sintomas em torno do conceito de “vergonha tóxica” como força motora e causa central do trauma espiritual, indicando como sintomas:

  • Rituais Compulsivos Anestésicos: Multiplicação compulsiva de práticas religiosas (confissões frequentes, reza obsessiva do terço, jejuns severos) utilizadas para enterrar temporariamente a vergonha interior.
  • Sensação de Inadequação Inerente: Convicção gnóstica e persistente de que a pessoa “não tem valor” e merece o inferno.
  • Anulação da Voz Própria: Substituição do self autêntico pela estrutura da instituição ou pelas exigências de pastores/líderes, resultando em codependência e perda de autonomia moral

Petersen(2023) entatiza o  trauma religioso na população LGBTQIA+ submetida a teologias de não-aceitação e rejeição. A autora classifica a sintomatologia em torno do fenômeno que ela descreve como Fragmentação Interna em seis aspectos:

  • Fragmentação do Self: Ruptura das estruturas básicas que organizam o eu, o mundo e o divino; convicção de estar fora do amor de Deus e condenado ao inferno.
  • Respostas Afetivo-Comportamentais: Raiva intensa, tristeza profunda, ansiedade paralisante, depressão clínica e episódios de automutilação.
  • Comportamentos de Risco e Ideação Suicida: Uso e abuso de álcool/drogas, ideação suicida recorrente e tentativas de suicídio após a saída da comunidade religiosa.
  • Trauma de Apego/Ocultamento: Repressão ou ocultamento forçado da identidade por medo, associado à dor do abandono interpessoal e familiar.

Por outro lado,  Anderson (2023) aborda o tema sob uma perspectiva psiquiátrica e neurofisiológica, inserindo o trauma religioso no espectro do Transtorno de Estresse Pós-Traumático Complexo (TEPT-C). Em consonância com os estudos mais recentes sobre o trauma, cuja experiência fica registrada no corpo, a autora aponta elementos fundamentais para a compreensão dos sintomas a partir de três categorias principais:

  • Ativação do Sistema Nervoso e Somatização: . Manifesto por hipervigilância, respostas involuntárias de luta, fuga, congelamento ou submissão, e episódios de pânico noturno e insônia ligados ao medo de salvação/condenação
  • – Identidade e Autoconceito: Dúvida profunda de si, vergonha internalizada e sensação de ser intrinsecamente inadequado ou imperfeito
  • – Relacional: Dificuldade sistemática em confiar nos outros e em si mesmo, hipervigilância social em ambientes públicos e privados e relações complexas com figuras de autoridade

Apesar de utilizarem linguagens conceituais distintas, os autores convergem em pontos como: 

  1. Vergonha patológica e perda do autoconceito 
  2. Perda de Agência, Supressão Crítica e Submissão
  3. Rituais Compulsivos e Mecanismos Desadaptativos de Regulação do Afeto
  4. Fratura Relacional, Ruptura do Apego e Isolamento Social
  5. Terror Existencial, Pânico e Somatização

Assim, as vítimas de trauma espiritual podem ser diagnosticadas com uma série de transtornos como: Transtorno de Estresse Pós-Traumático Complexo (TEPT-C) e TEPT; Transtorno Depressivo Maior ; Transtornos de Ansiedade (como Transtorno de Pânico e Ansiedade Generalizada); Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) / Escrupulosidade; Transtornos Relacionados ao Uso de Substâncias;Transtornos Dissociativos. 

A profundidade do trauma espiritual 

O contexto religioso-espiritual onde o abuso/trauma se desenvolve não deve ser ignorado. Isso porque afeta todo o conjunto de crenças que deveriam ser consoladoras e de esperança que possibilitam o sentimento de pertença e o desenvolvimento da personalidade.  

Perissé(2024) afirma que o abuso espiritual “atinge ‘a alma da nossa alma’, e por isso é o pior dos abusos, embora possa passar despercebido”(p19). Essa afirmação é importante pois indica o cerne do trauma espiritual, ele afeta, na linguagem junguiana, o cerne da relação do ego com o Self. 

Para a psicologia junguiana, o Self (ou Si-mesmo) é compreendido como o arquétipo da totalidade, integridade e organização psíquica — ou seja, é o centro organizador da vida psíquica a partir do qual deriva a experiência do ego individual.

O Self é vivenciado personificado em diferentes símbolos e representações, em especial nas divindades criadoras. Por isso mesmo, Jung descreveu o Self como a “imago Dei” ou imagem de Deus em cada um. (Sugiro ao leitor que desconhece a compreensão junguiana sobre Deus que leia o texto “Deus como Realidade Psíquica: A experiência numinosa em C.G. Jung”).

 A relação do ego com o Self (si-mesmo), é descrita como “eixo ego-selg” que “representa a conexão vital entre o ego e o Si-mesmo, a qual deve estar relativamente intacta se se pretende que o ego suporte as tensões e cresça”(Edinger, 1989  p.67). Deste modo, 

O Si-mesmo, na qualidade de centro e totalidade da psique, capaz de conciliar todos os opostos, pode ser considerado o órgão de aceitação par excellence. Como inclui a totalidade, ele deve ser capaz de aceitar todos os elementos da vida psíquica, por mais antitéticos que possam ser. O sentimento de ser aceito pelo Si-mesmo dá ao ego força e estabilidade. Esse sentimento de aceitação é o veiculado para o ego através do eixo ego-Si-mesmo. Um sintoma de danificação desse eixo é a falta de auto-aceitação. O individuo sente que não merece viver ou ser o que é. A psicoterapia oferece à pessoa que passa por isso uma oportunidade de enfrentar a aceitação. Em casos bem-sucedidos, essa experiência pode equivaler a um reparo do eixo ego-Si-mesmo que restabelece o contato com as fontes internas de força e de aceitação – o que deixa o paciente livre para viver e crescer. (ibid, p. 69.)

O abuso espiritual macula a representação positiva do Self, convertendo essa vivência em sua contraparte negativa — marcada por sentimentos de desamparo, medo e indignidade. Muitos pacientes padecem por carregar uma imagem violenta ou inalcançável de Deus, ansiando por uma relação saudável com seu sistema de crença e fé, a qual foi rompida pelo trauma. Essas situações são mais evidentes no TOC religioso, em que a experiência do sagrado se torna devastadora, trazendo profundos sentimentos de impureza, indignidade e medo da perda da salvação.

Assim, lidar com o trauma espiritual exige uma perspectiva que considere a visão do sagrado do paciente, visando a reparação da relação mais profunda com a sua perspectiva do divino – arquetípica e suprapessoal – isto é, com o Self. Sem essa perspectiva, independente de assumir ou não uma nova religião institucional e da supressão dos sintomas, o paciente poderá sentir uma desconexão interior, como se algo faltasse em sua perspectiva existencial.

No proximo texto, comentaremos um pouco mais sobre a clínica do trauma espiritual.

Referências Bibliográficas

ANDERSON, Laura E. When Religion Hurts You: Healing from Religious Trauma and the Impact of High-Control Religion. Grand Rapids: Brazos Press, 2023.

BOOTH, Leo. When God Becomes a Drug: Breaking the Chains of Religious Addiction & Abuse. Los Angeles: Tarcher/Perigee, 1991.

CASHWELL, Craig S.; SWINDLE, Penne J. Counseling Survivors of Religious Abuse. In: Routledge International Handbook of Spirituality and Mental Health. London: Routledge, 2018.

GONZÁLEZ-RIVERA, J. A. Trauma religioso: Fundamentos conceptuales para la práctica de la psicotraumatología y la psicología clínica. Revista CISTEI, v. 4, n. 1, p. 61–77, 2024.

EDINGER, Edward F. Ego e Arquétipo, SP, Cultrix, 1989

KALSCHED, Donald. Trabalhando o trauma na Análise. In: STEIN, Murray (org.). Psicanálise Junguiana: Trabalhando no Espírito de C.G. Jung. Petrópolis: Vozes, 2019.

LINN, Matthew; LINN, Sheila Fabricant; LINN, Dennis. Healing Spiritual Abuse & Religious Addiction. Mahwah: Paulist Press, 1994.

PERISSÉ, Gabriel. Abuso Espiritual: A manipulação invisível. São Paulo: Paulus, 2024.

PETERSEN, Brian N. Religious Trauma: Queer Experiences in Toxic Religion and the Path to Healing. Lanham: Lexington Books, 2023.

Com mais duas décadas dedicadas à escuta clínica e ao estudo da psique humana, Fabrício Fonseca Moraes é psicólogo junguiano, professor e diretor do CEPAES. Sua prática — viva em consultório desde 2004 — é enriquecida por uma visão integrativa e profunda do ser humano. Graduado pela UFES, ele transita com autoridade por diversas áreas do cuidado: é especialista em Psicologia Clínica e da Família, Teoria e Prática Junguiana e Acupuntura Clássica Chinesa, somando a isso sua formação em Hipnose Ericksoniana. Acredita no poder da difusão do conhecimento, sendo o coordenador do Blog do Jung no Espírito Santo (psicologiaanalitica.com), um espaço dedicado a traduzir a psicologia analítica para o dia a dia.

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