Psicologia e Religião: Do Conflito ao Diálogo na prática clínica
A religião é um fenômeno humano encontrado em todas as culturas. Jung compreendia que a psique era “naturaliter religiosa”, ou seja, a psique naturalmente tendia à busca do sagrado, à construção de perspectivas ou significados transcendentes. O que tornava a religião um campo de estudo necessário para se compreender os processos psíquicos.
Embora o fenômeno religioso seja universal e tenha despertado o interesse dos principais fundadores do campo psi (como Wundt, Freud, James e Jung), a psicologia contemporânea ainda mantém uma relação conflituosa com a espiritualidade, marcada por tensões que dificultam o diálogo, impõem limitações clínicas para uma abordagem terapêutica plena, gerando receio e desconfiança das comunidades de fé.
Podemos compreender as dificuldades ou barreiras que na relação da psicologia com a religião em 3 aspectos:
1 – Históricos e Epistemológicos:
A partir da década de 1930, há uma forte mudança nos rumos dos estudos acerca da religião Alguns motivos para o declínio do estudo da religião segundo Byrnes e Beit-Hallahmi (apud Esperandio e Freitas, 2017) são:
a)o fracasso da psicologia em separar-se da teologia ao investigar o fenômeno religioso.
b) o seu esforço quase desesperado por ser reconhecida como “científica” num cenário de influências positivistas e iluministas.
c) Os conflitos geralmente vividos tanto pelos pesquisadores quanto pelos sujeitos quando da investigação do assunto.
d) a subjetividade do fenômeno religioso, que dificulta sua abordagem “empírica” e “objetiva”.
e) a influência do behaviorismo, que reduziu o objeto de estudo da psicologia ao comportamento observável, e da psicanálise freudiana, que reduziu a religião a religião a uma ilusão da humanidade. ( p.64-5)
Esses apontamentos são importantes pois, diferente do q ue ocorreu no início do século passado, a psicologia na atualidade se distanciou de forma tão radical da religião e da teologia que não há uma base de diálogo no campo da psicologia. Assim, o estudo, mas o ensino de psicologia da religião ficou prejudicado devido a ênfase, por décadas, das perspectivas reducionistas comportamentalistas e psicanalíticas acerca da religião.
2 – Problemas na formação e prática dos profissionais
Nesse aspecto, as deficiências acerca do estudo da religião são compartilhadas por todos os profissionais da área da saúde. Há uma grande ausência do ensino de psicologia da religião nos cursos de graduação, Paula & Marques (2023) apontam que
Segundo Oliveira (2019), o baixo número de instituições de ensino que oferecem ou desenvolvem discussões relacionadas à Psicologia da Religião pode ser a causa da falta de conhecimento ou entendimento da área por parte dos psicólogos recém-formados. A falta de conhecimento sobre esse tema pode também implicar em um despreparo para lidar profissionalmente com pacientes/clientes que apresentem angústias e/ou sofrimentos psíquicos relacionados à religiosidade e/ou espiritualidade.
Considerando a questão da disponibilização de disciplinas com temas da Psicologia da Religião nos anos de graduação, Zangari e Machado (2018) apontaram que pior do que o baixo número de disciplinas de Psicologia da Religião ministradas nos cursos de graduação em Psicologia, está o despreparo por parte dos docentes para lidar com o tema quando são questionados a respeito, o que pode resultar em atitudes polarizadas,incluindo a negação, proibição ou desentendimentos relacionados ao tema.(p. 40-1)
Assim, a imensa maioria dos psicólogos não recebe o mínimo necessário em suas graduações sobre como conduzir históricos espirituais ou manejar as necessidades religiosas dos pacientes. Essa falta de preparo gera insegurança e receio sobre como atuar de forma prática. Com o temor de ultrapassar alguma barreira ética, ou desrespeitar o paciente, muitos profissionais apenas “ignoram” os relatos sobre as experiências de fé.
Há ainda a tendência de rotular vivências ou experiências numinosas e místicas saudáveis como sintomas psicopatológicos, ou mecanismos de defesa inconscientes, falhando em compreender o seu real significado existencial.
3. Problemas por parte das Comunidades Religiosas e dos Pacientes
As comunidades religiosas, especialmente as mais conservadoras ou fundamentalistas, adotam, frequentemente, uma postura reativa e evitativa frente à psicologia e à psiquiatria. Essa reatividade fundamenta-se no receio da desvalorização das crenças sagradas ou da redução da fé ao “meramente psicológico”. Tal postura pode levar a extremos, como em grupos que, ainda hoje, compreendem a cura espiritual — por meio de milagres, oração intensa ou exorcismo — como a forma verdadeira de tratamento, gerando forte resistência ou mesmo a recusa ao suporte psicoterápico e ao uso de medicações psiquiátricas.
Por outro lado, a internalização de uma imagem divina exclusivamente punitiva frequentemente desencadeia um sofrimento existencial profundo. A recorrência de sentimentos como culpa patológica, ressentimento ou vivências de abandono divino — além de quadros clínicos como o TOC religioso — cria um embaraço significativo ao processo de cura, transformando o suporte religioso em um fator de adoecimento psíquico.
Superando barreiras e construindo Pontes
Para superar as barreiras que dificultam a relação entre a psicologia e a religião, mantendo uma relação de laicidade e respeito, seria necessário pensar em dois níveis muito distintos, o primeiro coletivo envolveria as instâncias reguladoras da psicologia no Brasil, Sistema Conselhos, Instituições de Ensino Superior e associações, visando a desconstrução de narrativas históricas de antagonismo, reformas curriculares, ampliações nas perpectivas epistemológicas.
Isso é necessário, pois, a perspectiva academicista não fornece recursos à prática diária, trazendo prejuízos aos profissionais que, em sua maioria, evitam lidar com a religião por medo de sofrer penalizações éticas. Isso ocorre, devida uma confusão entre laicidade (que preconiza o respeito à singularidade, ao pluralismo e à diversidade de crenças de forma neutra) e laicismo (a aversão, interdição ou exclusão ativa do religioso do ambiente profissional).
A superação dessa barreira envolve compreender que o acolhimento respeitoso da religiosidade do paciente não compromete o caráter laico da profissão. As normativas mais recentes do Sistema Conselhos de Psicologia no Brasil (como a Resolução CFP nº 07/2023) estabelecem expressamente a dimensão da religiosidade como elemento constitutivo da subjetividade humana e dever ético de consideração técnica, vedando a negligência e a discriminação de qualquer credo.
Para tanto é importante que o psicoterapeuta adquira habilidades e ferramentas para o setting clínico como “Anamnese e Histórico Espiritual”(cf. Psicologia e Anamnese Espiritual), que visa compreender a importância da religiosidade e das crenças para o sujeito. Essa investigação deveria fazer parte da anamnese inicial assim como se investigam as dimensões familiar e socioeconômica, criando um ambiente seguro para o paciente manifestar-se sem medo de ser ridicularizado ou rotulado.
Para tanto é importante saber distinguir experiências espirituais e anômalas saudáveis (denominadas REDEMA – Experiências Religiosas, Espirituais, Dissociativas Espirituais ou Mediúnicas e Anômalas.) de sintomas de transtornos mentais reais (psicoses e dissociações patológicas). Isso evita a patologização indevida da espiritualidade do paciente de acordo com referenciais puramente biomédicos ou reducionistas.
Hamazaki (2024) aponta algumas habilidades fundamentais para o psicólogo clínico no trabalho com a religião:
- Consciência Religiosa: Consiste na capacidade de o profissional perceber e compreender sua própria religiosidade/ espiritualidade ou irreligiosidade (crenças ou descrenças). É fundamental que o terapeuta saiba como suas convicções pessoais influenciam sua prática clínica, atitudes e pressuposições sobre a natureza dos processos psicológicos do paciente, evitando projetar seus vieses ou preconceitos.
- Conhecimento Religioso: Envolve o cuidado em saber sobre as origens, heranças e histórico religioso/espiritual (ou secular) do paciente, compreendendo como esses elementos moldam sua subjetividade, personalidade e escolhas de vida. Exige também conhecer a diversidade de crenças do contexto cultural do paciente e a fenomenologia das experiências REDEMA.
- Habilidades Religiosas: É a aptidão técnica para utilizar o conhecimento e a sensibilidade clínica no relacionamento com o paciente, integrando os elementos espirituais dele de forma adequada na avaliação, no diagnóstico e no tratamento. No uso da linguagem, metáforas e reflexões a partir da matriz religiosa do paciente.
Assim, a compreensão ampla sobre a religiosidade do paciente, possibilita avaliar se é possível ou não o uso da religiosidade do paciente. Pois, em caso de uma experiência religiosa marcada pela cobrança, culpa e punitividade, pode ser um desafio e não contribuir com o processo do paciente.O psicólogo deve ter a capacidade para identificar se as práticas ou referenciais espirituais do paciente estão sendo utilizados como enfrentamento (coping) positivo ou negativo de suas adversidades..
- O coping positivo envolve buscar na fé conforto, apoio, união com o divino e ressignificação saudável de crises.
- O coping negativo ocorre quando as crenças aumentam o sofrimento (gerando sentimentos de culpa e pecado, medo de punição divina, descontentamento com Deus ou delegação passiva de responsabilidades existenciais). O terapeuta deve saber ajudar o paciente a ressignificar essa relação para torná-la construtiva.
Todo o manejo clínico deve ser estritamente condizente com a visão religiosa, espiritual ou secular do paciente, e não do terapeuta. Do mesmo modo, o psicólogo precisa compreender que os pacientes podem ter uma múltipla pertença religiosa (combinando crenças de sistemas diferentes) e deve saber utilizar as histórias, metáforas e conceitos da própria religião do paciente para facilitar o vínculo terapêutico e a adesão ao tratamento.
Essas competências e habilidades são essenciais para que a prática profissional respeite e integre a vivência religiosa no processo psicoterapêutico. Isso possibilita que as barreiras entre a psicologia e a religião sejam superadas de forma ética e respeitosa.
Referências Bibliográficas
ESPERANDIO, Mary Rute Gomes; FREITAS, Marta Helena de (org.). Psicologia da Religião no Brasil: História, Pesquisa e Ensino. Curitiba: Juruá, 2017.
Paula, P. & Marques, T. G. (2023) A importância da Psicologia da Religião na formaçãoAcadêmica de psicólogos. In I Congresso Mineiro Psicologia, Laicidade,Espiritualidade, Religião e Outros Saberes Tradicionais: Anais. (pp 37-44). CPR-MG
HAMAZAKI, Edson Sigueyoshi. Experiências religiosas, espirituais e anômalas na psicoterapia: relatos dados por psicólogos. 2024. Tese (Doutorado em Ciência da Religião) – Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2024. Disponivel em: https://repositorio.pucsp.br/jspui/handle/handle/43883 Acessado em 21/12/2025.
Psicólogo clínico junguiano graduado pela Ufes. Especialista em Psicologia Clínica e da Família pela Faculdade Saberes; especialista em Teoria e Prática Junguiana pela Universidade Veiga de Almeida e especialista em Acupuntura Clássica Chinesa IBEPA/FAISP; com formação em Hipnose Ericksoniana pelo Instituto Milton Erickson do Espírito Santo. É professor e diretor do CEPAES. Atua desde 2004 em consultório particular. Coordenador do Blog do Jung no Espirito Santo (www.psicologiaanalitica.com)



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