O Paciente Religioso e a Escuta da Fé na Psicoterapia
Em diversos textos deste blog, abordamos a relação entre a Psicologia e a religião, contemplando as atitudes dos psicólogos, o diagnóstico, a laicidade e a diversidade das experiências religiosas. Contudo, persiste uma dificuldade considerável em compreender a vivência religiosa em sua plenitude, visto que é uma experiência pessoal Assim, frequentemente, no estudo do fenômeno religioso, somos levados a adotar a postura como dos anatomistas que, para compreender a religiosidade, a segmentam, fragmentam e descrevem por meio de narrativas, crenças e ritos. De outro modo, agimos de modo similar aos fisiologistas que descrevem as relações e o funcionamento de tais crenças e ritos, bem como a função que exercem para o sujeito.
Nesse sentido, a religião pode ser apresentada como fato social (Durkheim), neurose obsessiva (Freud), hierofania (Eliade), numinoso (Otto), dossel sagrado (Berger), sistema simbólico (Geertz), mitologia (Campbell), aparelho ideológico de Estado (Althusser), identidade social (Tajfel) ou bricolagem espiritual (Lévi-Strauss e Hervieu-Léger), dentre outras. Embora todas essas expressões sejam válidas e auxiliem na compreensão do fenômeno religioso, apresentam, contudo, pouca utilidade para a prática clínica.
Na prática da psicoterapia, naturalmente, percebemos as categorias acima, contudo, a particularidade da vivência do paciente dilui o campo conceitual em torno da experiência religiosa pessoal. Assim, o foco na clínica não é a religião, mas o paciente e sua experiência. Deste modo, poderíamos parafrasear Gombrich e afirmar que: Uma coisa que realmente não existe na clínica é aquilo a que se dá o nome de Religião. Existem somente pessoas religiosas.
Essa visão é consoante o que Jung(2000) dizia que
“Costumo dizer aos jovens terapeutas: “Aprendam o máximo, saibam o máximo e, depois, esqueçam tudo quando chegarem ao paciente”. Ninguém é bom cirurgião pelo fato de saber de cor um livro sobre o assunto.” (pr. 882)
Ele ressaltava a importância de evitar o intelectualismo e os protocolos rígidos, pois, embora conhecer a teoria seja importante, a vivência do paciente — e, principalmente, o encontro com o paciente — é fundamental. A forma como se vive a religião é sempre singular, mesmo que inserida em um contexto coletivo.
Como conceituar a vivência religiosa do paciente? Acredito que a arte e a poesia oferecem as expressões mais potentes para esse olhar. Em sua monumental obra “O Profeta”, Khalil Gibran narra o retorno de Al-Mustafá à sua terra natal, após doze anos de espera. No caminho de sua casa até o porto, ele despede-se das pessoas que lhe pedem que compartilhe de sua sabedoria, próximo ao seu destino, o profeta é interpelado por um sacerdote, que lhe solicita:
E um velho sacerdote disse:
“Fala-nos da Religião.”
E ele disse:
‘Terei falado hoje sobre algo além disso?
Não é a religião todas as nossas ações e reflexões,
E aquilo que não é ação nem reflexão, mas sim maravilha e surpresa brotando
sempre na alma, mesmo quando as mãos talham a pedra e manejam o tear?
Quem é capaz de separar sua fé de suas ações, ou sua crença de seus afazeres?
Quem é capaz de separar suas horas dizendo assim: ‘Uma para Deus e uma para
mim; uma para minha alma, e uma outra para meu corpo?’
Todas as vossas horas são asas adejando pelo espaço, de um Eu para outro.
Aquele que ostenta sua moral como suas melhores roupas estaria melhor desnudo.
O vento e o sol não abrirão feridas em sua pele.
E aquele que define sua conduta pela ética aprisiona seu pássaro cantor numa gaiola.
A canção mais livre não atravessa grades e cercas.
E aquele para quem a veneração é uma janela, que pode ser aberta mas também
fechada, ainda não visitou o santuário de sua alma cujas janelas estão sempre abertas de uma aurora a outra.Vossa vida diária é vosso templo e vossa religião.
Ao entrardes, levai convosco vossa totalidade.
Levai o arado, a forja, o malho e o alaúde,
Aquilo que fizestes por necessidade ou encanto.
Pois em vossos devaneios não podeis elevar-vos acima de vossas realizações
nem cair abaixo de vossos fracassos.
E levai convosco todos os homens:
Pois em vossa adoração não podeis elevar-vos acima de suas esperanças nem
rebaixar-vos além de seu desespero.
E se desejais conhecer a Deus, não vos transformai, portanto, em decifrador de enigmas.
Olhai em redor e O vereis a brincar com vossos filhos.
E olhai o espaço: vós O vereis a caminhar sobre as nuvens, estendendo Seus
braços em raios e descendo à terra em chuva.
Vós O vereis a sorrir em flores; e Suas mãos, a acenar em árvores. ”
Para a pessoa religiosa, a religião — para além das instituições e ritos — constitui-se como uma expressão externa de sua verdade interna. Todas as suas palavras, sensações e sentimentos são atravessados por essa vivência religiosa. Não se trata de uma formalidade, mas de um modo genuíno de ser no mundo, uma lente fundamental para compreender, relacionar-se e encontrar sentido na vida.
No campo junguiano, temos o hábito de analisar a religião sob a ótica de narrativas míticas e processos simbólicos; contudo, estas são apenas formas de nomear a realidade e experiência psíquica do paciente. Essa perspectiva se torna insuficiente se não conseguirmos acessar a essência de sua fé. Para descrever essa essência significativa — que pode ou não estar atrelada à religiosidade —, Jung utilizou o termo ‘fator eficaz’, o qual expressa a vivência numinosa que promove a sensação de totalidade e propicia transformações na vida individual. Ele dizia que
De fato, a regra que sempre sigo é nunca ir além do significado contido no fator eficaz; esforço-me apenas para que o paciente tome, o quanto possível, consciência desse significado, a fim de que ele perceba que o mesmo também tem uma dimensão que ultrapassa o nível pessoal. ” (Jung, 1999, p. 43-4 §99)
Não ir além do fator eficaz significa que não se deve “dissecar” a experiência significativa do paciente, isto é, não se reduz em termos psicológicos, intelectuais ou simbólicos. No caso da experiência religiosa já há uma conexão transcendente, logo , auxilia-se a compreensão positiva e restauradora de sua vivência espiritual.
A psicologia importou da das ciências políticas e jurídicas o termo laicidade para expressar a necessidade de proteger o paciente, geralmente em situação de vulnerabilidade, de qualquer forma de assédio ou discriminação religiosa que possa ser realizado por profissionais sejam eles religiosos ou não-religiosos.
Não há dúvidas de que a laicidade é importante; contudo, ela representa apenas o patamar mínimo para uma relação profissional. Na prática, é necessário respeito, humildade para aprender e um interesse genuíno pela espiritualidade do paciente. É por meio desses elementos que o profissional desenvolve competências fundamentais — como a consciência, o conhecimento e a habilidade religiosa — que permitem adaptar-se ao contexto do indivíduo e, respeitando sua vivência, atuar de forma eficaz e ética.
O desenvolvimento de habilidades para lidar com a religiosidade envolve considerar que, em contextos de TOC religioso, perspectivas religiosas prejudiciais ao tratamento de saúde (coping religioso negativo) ou vivências traumáticas associadas à fé, muitas vezes exige o que o profissional utilize dos recursos ou referências religiosas do paciente em seu tratamento. Tornando fundamental compreender a história, contexto social, doutrina e práticas de religião atual do paciente e/ou da religião de origem, pois mesmo que ele esteja desligado de uma comunidade de fé, ele continua atravessado por essa experiência – positiva ou negativamente.
Se, como nos lembra Khalil Gibran, a vida diária do indivíduo religioso é o seu templo e a sua religião, o consultório não pode ser o lugar onde ele é forçado a deixar suas crenças do lado de fora. Acolher o paciente religioso exige atenção e cuidado para não mutilá-lo, rejeitando sua fé. Esta, com frequência, é o “fator eficaz” que possibilita os processos de transformação, permitindo que o sagrado e o psicológico caminhem juntos na clínica. O tratamento psicológico não significa retirar do paciente as lentes pelas quais ele enxerga o sentido do universo, mas ajudá-lo a limpá-las, para que possa enxergar a si mesmo em sua mais bela e completa totalidade.
Referências Bibliográticas
JUNG, C.G. Civilização em Transição. Petrópolis: Vozes, 2000
JUNG. C. G, A Prática da Psicoterapia, Petrópolis: Vozes, 1999.
GIBRAN, K., O profeta, Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 2011.



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