“A religião é um fenômeno natural?”
Com alguma frequência, nos deparamos com a questão recorrente se a religião constitui um fenômeno natural — isto é, se é intrínseca à espécie humana. Trata-se de uma interrogação tão legítima quanto complexa, capaz de nos conduzir por caminhos reflexivos profundos.
Como surge essa questão?
Esta interrogação não é inédita. Ela remonta à antiga afirmação anima naturaliter christiana (“a alma é naturalmente cristã”), do apologista Tertuliano (160–220), cujo pensamento tornou-se um pilar na sustentação e no desenvolvimento do cristianismo.
Do século III, ou seja, da apologética cristã aos nossos dias, a humanidade passou por inúmeras transformações, especialmente impulsionadas pelo desenvolvimento científico e pela gradual distinção entre filosofia, ciência e religião.
Nessas transformações, o caráter absoluto da religião foi relativizado; a afirmação original transformou-se em uma indagação que busca não mais a defesa do cristianismo, mas a compreensão do fenômeno religioso em si. Jung contribuiu para essa temática ao reinterpretar a afirmação de Tertuliano, propondo que a alma é naturaliter religiosa (“naturalmente religiosa”).
Contudo, Jung rejeitava a noção de transcendência teológica, embora reconhecesse a função vital da religião para a psique humana. Como, então, compreender essa perspectiva?
A condição humana e a busca de sentido
A condição humana é um ponto de partida importante para entendermos a “naturalidade da religião”. Desse modo, usaremos para pensar a condição humana os seguintes pontos:
A Relação e dependência: o ser humano é profundamente dependente de cuidados ao nascer e por um longo período de amadurecimento. A vida humana, desde seu início, precisa estar em relação para que o seu desenvolvimento ou amadurecimento possa ocorrer. O “filhote de ser humano” não nasce humano, ele se torna humano. Esse processo depende tanto das relações de cuidado e apego quanto dos estímulos relacionados à linguagem e à cultura, que possibilitam ao cérebro o desenvolvimento de seu potencial humano. Assim, os padrões relacionais inerentes à sobrevivência são sustentados pela vivência cultural que nos torna humanos.
Somos constituídos coletivamente. Na psicologia junguiana, entende-se que o processo de individuação — o caminho pelo qual nos “tornamos quem somos”, integrando o potencial coletivo à nossa individualidade — desenrola-se em dois grandes atos: o primeiro, na infância, com o desenvolvimento do ego; e o segundo, na metade da vida, com o fortalecimento da relação com o Self, marcado por uma profunda busca por sentido. Como Jung afirmava:
a realização da totalidade é um processo interpsíquico, que depende essencialmente de o indivíduo estar relacionado com outro ser humano” (JUNG, 1999 , – Nota de rodapé 156)
Sofrimento e finitude: o sofrimento constitui uma dimensão inerente à existência humana. A vivência da dor, das doenças, das perdas, da velhice e da finitude moldou, de forma determinante, o desenvolvimento da consciência humana ao longo de nossa história.
É importante considerar que, na Antiguidade e na Idade Média, a expectativa de vida oscilava entre 25 e 35 anos. No Brasil, até o início do século XX, a expectativa de vida era de apenas 33 anos. Essa baixa expectativa, somada à alta taxa de mortalidade infantil, fazia da morte uma experiência onipresente. Em nossa realidade, marcada por taxas de mortalidade mais baixas e maior expectativa de vida, paradoxalmente, nos sentimos menos preparados para lidar com a morte. E estamos desenvolvendo a compreensão sobre como vivenciar a velhice a partir dos 70 e 80 anos.
A busca de sentido: A vida humana é frágil e breve. O desenvolvimento da consciência, em especial dos sentimentos e da percepção do sofrimento, trouxe consigo a necessidade de atribuir sentido às vicissitudes da existência. Desse modo, a busca por um sentido atua como afirmação e validação da vida, sustentando e viabilizando o desenvolvimento individual e coletivo.
No livro “Estudos Alquímicos”, Jung faz uma analogia importante sobre a nutrição do corpo e a necessidade psíquica de um propósito existencial. Ele diz:
Assim como o corpo precisa ser nutrido, não com um alimento qualquer mas só com aquele que lhe convém, assim a psique tem necessidade do sentido de sua vida; e, além disso, não de um sentido qualquer, mas de imagens e ideias que lhe correspondam naturally, a saber, aquelas que lhe são suscitadas pelo inconsciente.(JUNG, 2003, § 476)
A busca por sentido é a experiência da vida que se transforma, se sustenta e se perpetua. A busca de sentido se relaciona com as questões-limite da vida, como “de onde venho?”, “quem sou? ou o que me torna quem sou?” e “para onde vou?”. Essas questões expressam o desenvolvimento da consciência, que é intrínseco ao processo evolutivo e ao desenvolvimento cultural.
O problema da “Natureza humana”
É importante termos cautela ao pensar em uma “natureza humana”, pois essa ideia pode revestir-se ou esconder-se sob critérios metafísicos ou mesmo teológicos.
Precisamos considerar que o ser humano não é regido pelo ambiente natural, isto é, o ambiente próprio do ser humano é o ambiente cultural, simbólico. Apesar de possuirmos determinantes genéticas, o ambiente cultural nos caracteriza e nos oferece os elementos necessários para o desenvolvimento bio-psico-socio-espiritual.
Assim, a natureza humana não é dada a priori ou absoluta, mas é um construto histórico das necessidades evolutivas para a constituição do que nos caracteriza como humanidade. Assim, a natureza humana é um processo ativo de atualização do processo evolutivo no indivíduo (e no grupo) a partir das experiências culturais.
A religião como processo natural
No processo de desenvolvimento humano, a consciência reflexiva surge como uma capacidade de avaliar escolhas e atribuir sentido aos fenômenos. Esse processo histórico de atribuição de sentido envolveu a criação de atos ritualísticos e simbólicos; os vestígios mais antigos de que dispomos são os sepultamentos rituais, datados entre 120 mil e 100 mil anos atrás, que sugerem o desenvolvimento de atitudes de reconhecimento, homenagem e alguma forma de crença na vida após a morte. Assim, nos atos de enterros rituais podemos sugerir alguma expressão de atitude religiosa.
Nesse contexto, a religião — ou religiosidade, para empregar o termo contemporâneo mais preciso — emerge da própria consciência em busca de significado na existência. Trata-se de uma forma fundamental de apreender e estruturar a realidade. Dessa forma, a religião só passa a ser concebida como um campo autônomo e distinto com o surgimento da filosofia, momento em que a atitude religiosa começa a ser examinada em si mesma e diferenciada das demais formas de apreensão do mundo e, posteriormente, do pensamento científico.
Nesse sentido, a religião, a religiosidade e a espiritualidade são tão naturais quanto a busca por sentido e pela compreensão do mundo. E, por isso, temos uma pluralidade de concepções sobre o sagrado — que guarda a centelha do espanto primordial do humano diante da existência.
O fato de a religião se transformar ao longo da história expressa sua naturalidade, pois a transformação, o desenvolvimento ou a evolução são próprios da natureza humana.
Considerações finais
Diante do exposto, a religião pode ser considerada um fenômeno natural — dentro do contexto apresentado. E, nessa naturalidade, podemos compreender seu papel diante das situações-limite da vida, como a morte. Jung afirmava:
“Pode-se mesmo afirmar que a maioria destas religiões é um complicado sistema de preparações para a morte, de tal modo que a vida, de acordo com a minha fórmula paradoxal acima expressa, realmente nada mais é do que uma preparação para o fim derradeiro que é a morte.” (JUNG, 2000, § 804)
A religião engloba um complexo sistema de relações que abrange sentimentos de pertencimento, segurança, esperança, conexão e continuidade. O sentido que cada pessoa atribui à religião — seja por uma perspectiva transcendente ou não — possibilita o enfrentamento das adversidades da vida. E, assim, contribui para o desenvolvimento do indivíduo.
Goethe, em uma célebre citação destacada por Freud em O Futuro de uma Ilusão, afirma: “Quem tem ciência e arte tem também religião; quem não tem nenhuma das duas, que tenha religião”. Essa máxima aponta para a espiritualidade como uma busca fundamental de sentido que pode ser vivenciada pela arte ou pela ciência. Na ausência destas, o indivíduo pode recorrer à matriz religiosa, que historicamente desempenhou esse papel na trajetória humana. Pois, como Jung apontava, o importante é que o indivíduo possua “um ponto de vista filosófico ou religioso capaz de enfrentar com êxito as vicissitudes da vida” (McGuire; Hull, 1982, p. 392).
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
FREUD, Sigmund. O futuro de uma ilusão (1927). Tradução de Renato Zwick. Porto Alegre: L&PM, 2014.
JUNG, Carl Gustav. Ab-reação, análise dos sonhos, transferência. Tradução de Maria Luiza Appy. Petrópolis: Vozes, 1999. (Obras completas de C. G. Jung, v. 16/2).
JUNG, Carl Gustav. A natureza da psique. Tradução de Mateus Ramalho Rocha. Petrópolis: Vozes, 2000. (Obras completas de C. G. Jung, v. 8/2).
JUNG, Carl Gustav. Estudos alquímicos. Tradução de Maria Luiza Appy. Petrópolis: Vozes, 2003. (Obras completas de C. G. Jung, v. 13).
McGUIRE, William; HULL, Richard Francis Carrington (org.). C. G. Jung: entrevistas e encontros. Tradução de Carmen Fischer. Petrópolis: Vozes, 1982.



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