Intolerância, Fanatismo e a Sombra
A busca humana por sentido e amparo tem na religião e na espiritualidade um pilar central, mas estas esferas são, paradoxalmente, palco de intensos conflitos sociais. No Brasil atual, mesmo com a garantia constitucional da liberdade de crença e um Estado laico, a intolerância religiosa persiste. Ela se manifesta em agressões — verbais, físicas e institucionais — dirigidas principalmente a grupos minoritários, com especial destaque para as religiões de matrizes africanas e indígenas. Esse quadro revela que a laicidade estatal, por si só, não foi suficiente para erradicar os preconceitos históricos profundamente arraigados na cultura brasileira.
A intolerância religiosa (ROCHA, 2011) pode ser entendida como uma manifestação perversa de autoafirmação que se baseia na exclusão e no particularismo. Ela se manifesta através da rejeição do outro, onde um grupo estabelece limites para distinguir o que é “nosso” em oposição aos “outros”, desconsiderando a dignidade e a humanidade daqueles com crenças distintas. Essa atitude se caracteriza pela dificuldade em reconhecer a alteridade e pela imposição de um modelo ou paradigma tido como superior, sendo por alguns autores classificada como “intolerância civilizatória”.
A intolerância, religiosa ou não, e o fanatismo caminham de mãos dadas. Frequentemente, o fanatismo é uma expressão extremista da intolerância. Segundo Oliveira et Al (2020)
Bobbio, Matteucci e Pasquino (1998, p. 464) definem o fanatismo como “cega obediência a uma ideia, servida com zelo obstinado, até exercer uma violência para obrigar outros a segui-la e punir quem não está disposto a abraçá-la”. Segundo esses mesmos autores, as consequências da mentalidade fanática são a hostilidade a ideias alheias e o insensato proselitismo que lança mão, até mesmo, de atos cruéis. Embora o fanatismo seja perceptível em alguns ambientes religiosos, pode, no entanto, estar associado a variadas ideias e não, necessariamente, apenas à religião. Há, por exemplo, fanatismo na política, no esporte, na arte e nos meios acadêmicos. (p.3)
Jung afirmava que “O fanatismo é o companheiro inseparável da dúvida” (2000, pr.335) O fanatismo é um processo defensivo, atua exatamente como um bloqueio ao processo de individuação. Na dinâmica do fanático, ocorre uma identificação total do Ego com a Persona — a máscara social e as normas coletivas do grupo ao qual pertence. Na ânsia de adaptação e pertencimento, o indivíduo suprime suas particularidades e desejos genuínos, adequando-se rigidamente aos costumes do movimento. Essa identificação extrema leva a um estado de alienação, onde o sujeito perde sua autonomia e senso crítico, fundindo-se à massa e tornando-se incapaz de dialogar com o diferente.
Essa superidentificação com a “Persona” (o individuo perfeito, puro e detentor da verdade) impede o sujeito de entrar em contato com a sua Sombra. Na psicologia de Jung, a Sombra representa as qualidades e atributos desconhecidos ou reprimidos pelo Ego, frequentemente os impulsos e desejos considerados imorais, inaceitáveis ou incompatíveis com os ideais conscientes. Grupos fundamentalistas e fanáticos exigem uma perfeição moral que nega a existência do mal interior, obrigando o indivíduo a reprimir intensamente qualquer aspecto sombrio de sua personalidade.
Uma vez que a Sombra não é reconhecida nem assimilada pelo Ego, ela não desaparece; pelo contrário, atua de forma autônoma e é externalizada através do mecanismo de projeção. O fanático projeta seus próprios conteúdos reprimidos (suas “tentações”, medos e maldades) no outro, que se torna o inimigo a ser combatido e destruido, assumindo o aspecto de “bode expiatório”, cuja eliminação é necessário para validação e manutenção da fantasia de persona ilibada. É assim que muitas religiões diferentes — frequentemente as de matriz africana no Brasil — são rotuladas e demonizadas, vistos como o mal a ser combatido ou convertido. A agressividade e a perseguição justificadas pela fé são, na verdade, uma luta do fanático contra seus próprios demônios não reconhecidos.
Além da projeção da Sombra, a psicologia junguiana aponta que o fanatismo esconde uma dúvida inconsciente. Essa dúvida é compensada com argumentos de ordem moral, Wahba (2017) aponta
Se, de um lado, é incerto estabelecer os mesmos pressupostos morais para grupos diferentes, de outro, em nome da moral e de elevados princípios, ideologias extremadas podem se instalar em detrimento da alteridade: a intolerância leva ao fanatismo. Jung (1948/1978) apontava no fanatismo uma dúvida inconsciente, um modo de evitar as próprias incertezas e a instituição de uma sacrossanta verdade acima de crítica em que a decisão moral é suprimida (1957/1978c). O escritor israelense e pensador contemporâneo Amos Oz (2004) considera a tolerância a questão fundamental do século XXI. Relaciona o fanatismo – muitas vezes – à atmosfera de um desespero profundo. Fora os extremos, a intolerância “fanática” se encontra no dia a dia em todo lugar, em formas civilizadas. Um exemplo seriam os antitabagistas, os vegetarianos, os assim chamados politicamente corretos, entre tantos outros.
(…)
O fanático intolerante difere daquele que tem opiniões firmes e convictas, pois se credita uma superioridade moral. Converge sua energia em salvar ou punir o outro e, desse modo, evita confrontar-se com sua pequeneza.Há certamente forte fator de projeção na intolerância: o outro é desprezível e, se for despossuído de humanidade, pode ser perseguido até justificar-se a violência. O fenômeno do bode expiatório é conhecido na antropologia e estudado pela psicologia, aplicado a todas as esferas de convívio no decorrer da história.
O indivíduo fanático evita enfrentar suas próprias incertezas agarrando-se a uma percepção de realidade inquestionável.A dúvida que não é assumida e trabalhada internamente é reprimida, gerando o religioso intolerante que necessita destruir qualquer visão de mundo que ameace a sua frágil segurança psíquica Gerando um engessamento psíquico impede a capacidade de respeitar o outro em sua totalidade. Assim, o outro é percebido apenas a partir das projeções defensivas do individuo fanático, impedido a possibilidade de dialogo de qualquer natureza.
O caminho para desconstruir a intolerância e o fanatismo, sejam de natureza religiosa ou não, exige fundamentalmente o autoconhecimento e a disposição corajosa de encarar a própria sombra. Uma postura verdadeiramente religiosa e/ou madura não se manifesta na busca por uma perfeição isolada ou na anulação do que é diferente. Pelo contrário, ela se traduz na promoção do equilíbrio, da compaixão e do respeito à diversidade das manifestações humanas e religiosas.
Referências Bibliográficas
JÚNIOR, C. A. R. Laicidade, laicismo e secularização: definindo e esclarecendo conceitos. Tempo da Ciência, [S. l.], v. 15, n. 30, p. p. 59–72, 2000. DOI: 10.48075/rtc.v15i30.1982. Disponível em: https://e-revista.unioeste.br/index.php/tempodaciencia/article/view/1982. Acesso em: 16 jan. 2026
ROCHA, Luciano Vieira. Uma Noção Histórica de Intolerância Religiosa:Conceituações e o Caso dos Jesuítas no Brasil Colônia. 2011. 97 f. Dissertação (Mestrado) -PPGCR Universidade Federal da Paraíba. João Pessoa, 2011.
OLIVEIRA, Thiago Araújo; FERRARI, Ilka Franco. O Aspecto Pulsional do Fanatismo Religioso. Gerais, Rev. Interinst. Psicol., Belo Horizonte , v. 13, n. 3, p. 1-14, dez. 2020 . Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1983-82202020000300013&lng=pt&nrm=iso>. acessos em 17 abr. 2026. https://doi.org/10.36298/gerais202013e15317.
WAHBA, Liliana Liviano. A estranheza do outro e os limites da tolerância. Junguiana, São Paulo , v. 35, n. 2, p. 5-12, 2017 . Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-08252017000200002&lng=pt&nrm=iso>. acessos em 19 abr. 2026.
Psicólogo clínico junguiano graduado pela Ufes. Especialista em Psicologia Clínica e da Família pela Faculdade Saberes; especialista em Teoria e Prática Junguiana pela Universidade Veiga de Almeida e especialista em Acupuntura Clássica Chinesa IBEPA/FAISP; com formação em Hipnose Ericksoniana pelo Instituto Milton Erickson do Espírito Santo. É professor e diretor do CEPAES. Atua desde 2004 em consultório particular. Coordenador do Blog do Jung no Espirito Santo (www.psicologiaanalitica.com)




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