Territórios do Sagrado: O templo, a família e o setting analítico 

Territórios do Sagrado: O templo, a família e o setting analítico 

Nota: Esse texto foi criado a partir da 4a aula dos encontros “Espiritualidade e Vida Psíquica”, ocorridos no primeiro semestre de 2026.

Toda narrativa sobre as origens começa com o vazio, com o espaço inabitável. E, pela ação divina, o espaço ou a terra se torna habitável e os seres humanos podem viver. As cosmogonias apontam para o complexo processo de constituição da realidade como a concebemos, propondo uma narrativa que atribui sentido e significado para a vida do grupo e dos indivíduos. Neste texto, propomos pensar o espaço sagrado, segurança e sensação de pertencimento.

O Espaço Sagrado

A nossa relação com o espaço físico é mediada pelas imagens e símbolos que compõem a nossa interpretação da realidade. A referência simbólica e cultural tem, no geral, sua origem nas religiões que, ao longo de toda a história humana, forneceram, através das narrativas religiosas e míticas, modelos de compreensão da realidade e conduta de vida.

A experiência simbólica com o espaço pode ser compreendida a partir da construção mítico-religiosa. Mircea Eliade (2001) aponta que, para o indivíduo religioso, o espaço não é homogêneo: ele pode ser percebido, por um lado, como o espaço comum, vulgar ou profano, que é um espaço fragmentado e finito, movido pelas obrigações sociais e mundanas. Por outro lado, o espaço sagrado é uma extensão da esfera divina, que se manifesta no espaço profano, sacralizando-o. Um exemplo é a experiência bíblica vivida por Moisés, quando pastoreava as ovelhas no monte Horebe, viu a sarça ardente

“Então disse Deus: “Não se aproxime. Tire as sandálias dos pés, pois o lugar em que você está é terra santa”. Exodo 3:5

O espaço sagrado é o local onde o sagrado se revela, conferindo um valor existencial profundo e modificando a experiência humana. Ele fornece um “ponto fixo” absoluto, um “Centro”, que funda ontologicamente o mundo. É a partir da descoberta e da projeção desse ponto fixo que o homem consegue se orientar e criar ordem, o que equivale, em essência, à própria Criação do Mundo. 

O espaço sagrado pode ser uma cidade (como Jerusalém, Meca, Machu Picchu, Varanasi, etc.), montanhas ou rios ( como o Monte Horebe, o Monte Wutai, o Rio Ganges, etc.) ou um Templo (como o Santo Sepulcro, a Caaba, o Templo Dourado, etc.) ou mesmo a própria casa, que pode ser marcada pelo sagrado. Com esse intuito, práticas de instalar talismãs no limiar das casas, como a Mezuzá (no judaísmo), o espelho Pa Kua (do feng shui), o Nazar (ou olho grego ou turco) ou a espada de São Jorge (planta de origem africana), visam proteger e aproximar o espaço do lar do sagrado.

A experiência com o sagrado, em todo caso, transforma a vivência individual da realidade, possibilitando a participação mística do indivíduo com o divino. A revelação e a consagração de um espaço sagrado oferecem um “ponto fixo” absoluto, que põe fim à desorientação, à ansiedade e à relatividade do espaço profano e caótico. O sagrado atribui sentido, segurança e estabilidade para que o indivíduo sobreviva às adversidades da vida. O espaço sagrado exerce a função primordial de base segura, e esta não se restringe apenas àqueles que vivem plenamente a religião. Eliade afirma que

o homem a-religioso das sociedades modernas é ainda alimentado e ajudado pela atividade de seu inconsciente, sem que por isso alcance uma experiência e uma visão do mundo propriamente religiosa. O inconsciente oferece-lhe soluções para as dificuldades de sua própria existência e, neste sentido, desempenha o papel da religião, pois, antes de tornar uma existência criadora de valores, a religião assegura-lhe a integridade. De certo ponto de vista, quase se poderia dizer que, entre os modernos que se proclamam a-religiosos, a religião e a mitologia estão “ocultas” nas trevas de seu inconsciente – o que significa também que as possibilidades de reintegrar uma experiência religiosa da vida jazem, nesses seres, muito profundamente neles próprios. De uma perspectiva cristã, poder-se-ia dizer igualmente que a não religião equivale a uma nova “queda” do homem: o homem a-religioso teria perdido a capacidade de viver conscientemente a religião e, portanto, de compreendê-la e assumi-la; mas, no mais profundo de seu ser, ele guarda ainda a recordação dela, da mesma maneira que, depois da primeira “queda”, e embora espiritualmente cego, seu antepassado, o Homem primordial, conservou inteligência suficiente para lhe permitir reencontrar os traços de Deus visíveis no Mundo. Depois da primeira “queda”, a-religiosidade caiu ao nível da consciência dilacerada; depois da segunda, caiu ainda mais profundamente, no mais fundo do inconsciente: foi “esquecida” (ELIADE, 2001, p.173-4).

A Base Segura, o Espaço Sagrado e o Self

O conceito de “base segura” de Bowlby indica um alicerce invisível que sustenta o desenvolvimento humano. Ela representa a figura de um cuidador que oferece proteção e conforto consistentes, tornando-se o ponto de referência estável para o qual a criança retorna sempre que se sente ameaçada ou insegura. 

Quando a criança tem a convicção de que esse apoio estará disponível e será acolhedor em momentos de medo ou estresse, ela desenvolve uma confiança profunda para se afastar e explorar o mundo com autonomia. Longe de gerar dependência, essa certeza de amparo reduz a ansiedade e atua como o combustível necessário para a curiosidade, o aprendizado e a construção de uma independência saudável ao longo da vida.

A “base segura” funciona, na prática, como uma âncora emocional.  É o refúgio de acolhimento para onde o indivíduo corre em busca de conforto e proteção sempre que se sente ameaçado, estressado ou doente. É a partir da base segura que a pessoa adquire a confiança e a tranquilidade necessárias para se afastar, explorar o ambiente, assumir riscos e aprender.

O conceito de ‘base segura’, da Teoria do Apego, e a noção de ‘espaço sagrado’, de Mircea Eliade, possuem uma profunda conexão com a psicologia analítica de Jung. O ‘espaço sagrado’ pode ser compreendida como uma manifestação arquetípica através da religião e, enquanto a ‘base segura’ indica a manifestação arquetípica no desenvolvimento infantil.

Os arquétipos são estruturas fundamentais da psique humana, comuns a todos os indivíduos. Eles alicerçam e organizam a experiência interna, proporcionando a estabilidade necessária para o desenvolvimento do ego e a regulação emocional. Na vivência pessoal, o arquétipo do Self se projeta nas figuras parentais, formando a base segura na qual o processo de apego no qual o desenvolvimento pode ocorrer de forma estável, trazendo o sentimento de segurança, proteção e pertencimento. 

Reconstrução da Base Segura: O Temenos

Quando uma criança não encontra uma base segura em seus cuidadores, ela tende a desenvolver padrões de apego inseguros, como o ansioso, o evitativo ou o desorganizado, que têm consequências profundas ao longo da vida, afetando também a forma como se relaciona com os outros. Essa falta de amparo inicial dificulta a regulação emocional, tornando o indivíduo mais vulnerável a explosões de sentimentos, ansiedade persistente ou, em contrapartida, ao bloqueio total de suas emoções sob estresse.

“Isso gera uma visão negativa de si mesmo e do mundo: a criança cresce acreditando que não é digna de amor e que os outros são fontes de decepção. O impacto se estende à vida adulta, onde essas feridas se manifestam em relacionamentos marcados pelo medo do abandono, dependência emocional ou uma fuga rígida da intimidade. Consequentemente, há um risco considerável de transtornos como depressão, ansiedade e o Transtorno de Estresse Pós-Traumático Complexo.”

Apesar dessa situação inicial, a psique busca reparação por meio de uma experiência segura e integradora, que é encontrada no que se pode chamar de ‘espaço sagrado’. Este pode se relacionar tanto a uma dada vivência religiosa (observada, por exemplo, em processos de conversão ou avivamento) com uma mudança e reflexão profunda sobre a própria vida quanto ao processo psicoterapêutico. Na abordagem junguiana, este processo é compreendido como temenos, isto é, um espaço sagrado e protegido que representa o esforço vital da psique para demarcar um território interior inviolável.

Assim, o setting analítico ou psicoterapêutico, como temenos, torna-se um espaço sagrado de transformação, uma base segura onde o indivíduo pode vivenciar suas vulnerabilidades e necessidades, compreender suas emoções e construir uma nova perspectiva sobre sua própria história.

A convergência entre o Espaço Sagrado de Eliade e a Base Segura de Bowlby revela que a busca humana por orientação não é apenas física, mas profundamente psíquica e existencial. Seja através da experiência religiosa, que organiza o caos do mundo em um cosmos ordenado, ou pelo temenos terapêutico, que restaura a integridade do Self, o ser humano necessita desse centro sagrado para florescer. Dessa forma, a reconstrução dessa base — seja no altar da fé ou no ambiente protegido da clínica — permite que o indivíduo transcenda suas feridas de apego e reencontre o seu lugar no mundo. Ao transformar o espaço profano do trauma em um território sagrado de autoconhecimento, a psique não apenas sobrevive às adversidades, mas busca conferir sentido e um profundo pertencimento à vida.

Referências Bibliográficas

ELIADE M, O Sagrado e o Profano, São Paulo: Martins Fontes, 2001

Psicólogo clínico junguiano graduado pela Ufes. Especialista em Psicologia Clínica e da Família pela Faculdade Saberes; especialista em Teoria e Prática Junguiana pela Universidade Veiga de Almeida e especialista em Acupuntura Clássica Chinesa IBEPA/FAISP; com formação em Hipnose Ericksoniana pelo Instituto Milton Erickson do Espírito Santo. É professor e diretor do CEPAES. Atua desde 2004 em consultório particular. Coordenador do Blog do Jung no Espirito Santo (www.psicologiaanalitica.com)

2 comments

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Elisa

Esse blog é um temenos em meio ao caos da sociedade. Dá pra sentir seu carinho, cuidado e intenção por trás de cada detalhe, Fabrício. Parabéns 🌷

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    Fabrício Moraes

    Obrigado Elisa!! Abraço!

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