Psicologia e Anamnese Espiritual
A psicologia tem uma relação complexa com a religião. Apesar de reconhecer a importância “da religiosidade e da espiritualidade como elemento formativo das subjetividades e das coletividades” (CFP, 2023), a psicologia mantém distância e um silêncio acerca do manejo clínico das vivências religiosas. Isso leva a um discurso frequente de que a religião só deve ser abordada na clínica se o paciente a trouxer. Isso é um contrassenso: o psicólogo deve conhecer e abordar a vivência religiosa do paciente para compreender tanto sua visão de mundo e suas crenças quanto o ambiente formativo de sua infância.
Para exemplificar a importância do psicólogo buscar ativamente compreender a história religiosa do paciente, gostaria de comentar acerca de uma técnica denominada “anamnese espiritual”. Esta técnica vem sendo utilizada no meio médico e em equipes multidisciplinares, contudo, ainda é pouco discutida na psicologia. A “Anamnese Espiritual” começou a ser utilizada como protocolo a partir de meados dos anos 90, tornando-se um recurso importante para a compreensão dos pacientes em sua totalidade e possibilitando um acolhimento integral.
Deste modo, a anamnese espiritual pode ser
“compreendida um processo de investigação sobre a percepção das crenças e valores de um indivíduo, assim como o significado que ele atribui à fé, à vida e à espiritualidade, e como isso poderá influenciar em sua saúde e no modo de ser cuidado” ( Póvoas et al, 2015, p. 8323)
Este modelo de anamnese que estamos apresentando está relacionado ao tratamento de pacientes em serviços de saúde ambulatoriais, hospitais, UTIs, residências assistidas e, em especial, por equipes de cuidados paliativos. Infelizmente, não temos modelos equivalentes que busquem compreender e integrar a espiritualidade do paciente ao processo psicoterapeutico.
A anamnese espiritual é um processo de curta duração, pois é composta por questões simples para serem realizadas de forma objetiva. Embora seja baseada em instrumentos estruturados, o ideal é que a anamnese espiritual seja aplicada de memória, ao longo do diálogo com o paciente, de forma informal, fortalecendo o vínculo terapêutico.
Deste modo, é mais apropriada para consultas de longa duração, acompanhamentos ambulatoriais, exames de rotina etc. É especialmente indicada diante de doenças crônicas, graves, progressivas ou terminais, bem como em internações prolongadas, pois oferece uma situação de segurança e previsibilidade para o paciente. Assim, essa abordagem não deve ser utilizada em situações de emergência (como acidentes, infartos ou consultas agudas), pois a maneira como a informação é transmitida nesses momentos críticos pode gerar medo e apreensão, ao invés de conforto, transmitindo ao paciente a ideia de que o fim da vida é iminente.
O foco da anamnese espiritual é a vivência religiosa do paciente, por isso o profissional deve ser acolhedor, respeitando os limites que o paciente possa impor ao compartilhar suas experiências e aceitando de forma irrestrita suas visões, sem tentar convertê-lo ou impor outras perspectivas. Por não visar a alteração da religião do paciente, a anamnese espiritual pode ser utilizada com pacientes não religiosos ou ateus, focando naquilo que lhes dá significado e propósito de vida.
Com o procedimento de anamnese espiritual, o profissional pode identificar as crenças do paciente (ligadas ou não a uma religião organizacional) e averiguar se ele faz parte de alguma comunidade de apoio espiritual. Essa avaliação possibilita discernir se a espiritualidade será uma fonte de força e esperança para lidar com a doença (coping positivo) ou se, pelo contrário, gera estresse, culpa, medo ou sentimentos negativos (coping negativo). Adicionalmente, é crucial verificar se as necessidades espirituais ou crenças do paciente podem prejudicar a adesão ao tratamento, orientando, assim, a abordagem terapêutica.
Os questionários
A anamnese espiritual foi desenvolvida a partir de instrumentos estruturados para a prática clínica, geralmente aplicados pelo corpo clínico hospitalar/ambulatorial. Esses podem ser questionários ou escalas de avaliação. No caso dos questionários eles se aplicam mais a prática clínica, já as escalas visam à pesquisa clínica não serão abordadas neste texto. Vejamos alguns modelos mais conhecidos :
- Questionário FICA: É o instrumento com as melhores características psicométricas e o mais destacado nas fontes. Ele aborda quatro dimensões: Fé/crença, Importância/Influência na vida, Comunidade (suporte) e Ação no tratamento (como o médico deve integrar isso ao cuidado).
- Questionário HOPE: Analisa as fontes de Hope (Esperança, conforto), pertencimento a uma Organização religiosa, Práticas espirituais Pessoais e Efeitos no tratamento médico.
- História eSPIRITual (ou de Maugans / SPIRIT): Mais vasto e detalhado, baseia-se no acrônimo SPIRIT, que investiga: Sistema de crenças, Práticas pessoais, Integração com comunidade, Rituais, Implicações no cuidado e eventos Terminais.
- CSI-MEMO: Questionário breve que foca no Conforto (Comfort), Estresse (Stress), Influência (Influence) das crenças no tratamento e se o paciente é Membro (MEMber) de alguma comunidade religiosa.
- História Espiritual do ACP (American College of Physicians): Curta, contendo apenas quatro perguntas focadas especialmente no cuidado de doenças graves, indagando sobre a importância da fé e o desejo de conversar com alguém sobre assuntos religiosos..
(Os dois quadros foram extraídos do artigo de Esporcatte et al(2020), para facilitar a visualização)
| Questionário HOPE: | Questionário FICA |
| H – Há fontes de esperança? Quais são suas fontes de esperança, conforto e paz? A que você se apega nos tempos difíceis? O que lhe dá apoio e faz você andar para a frente? | F – Fé/crença Você se considera religioso ou espiritualizado?Você tem crenças que ajudam a lidar com os problemas? Se não tem, o que dá significado à vida? |
| O – Organização religiosa Você se considera parte de uma religião organizada? Isso é importante?Faz parte de uma comunidade? Isso ajuda? De que formas sua religião ajuda você? Você é parte de uma comunidade religiosa? | I – Importância/influência Que importância você dá para a fé e as crenças religiosas na sua vida? A fé ou as crenças já ajudaram você a lidar com estresse ou problemas de saúde? Você tem alguma crença que pode afetar decisões médicas ou o seu tratamento? |
| P – Práticas espirituais pessoais Você tem alguma crença espiritual que seja independente dasua religião organizada? Você crê em Deus? Qual é a sua relação com ele? Que aspectos da sua espiritualidade ou prática espiritual ajudam mais? (oração, meditação, leituras, frequentar serviços religiosos?) | C – Comunidade Você faz parte de alguma comunidade religiosa ou espiritual?Ela lhe dá suporte? Como? Existe algum grupo de pessoas que você realmente ama ou é importante para você?Há alguma comunidade (igreja, templo, grupo de apoio) que lhe dê suporte? |
| E – Efeitos no tratamento Há algum recurso espiritual do qual você está sentindo falta? Há alguma restrição para seu tratamento gerada por suas crenças? | A – Ação no tratamento Como você gostaria que o médico considerasse a questão R/Eno seu tratamento? Indique algum líder religioso/espiritual da sua comunidade. |
| CSI—MEMO | História espiritual ACP (American College of Physicians) |
| 1. Suas crenças religiosas/espirituais lhe dão conforto ou são fontes de estresse? 2. Como estas crenças influenciariam suas decisões médicas se você ficasse realmente doente? 3. Você possui algum tipo de crença espiritual que pode influenciar ou conflitar com suas decisões médicas? 4. Você é membro de alguma comunidade espiritual ou religiosa e ela lhe dá suporte? 5. Você possui alguma necessidade espiritual que deva ser abordada por alguém? | 1. A fé (religião/espiritualidade) é importante para você nestadoença? 2. A fé tem sido importante para você em outras épocas da sua vida? 3. Você tem alguém para falar sobre assuntos religiosos?4. Você gostaria de tratar de assuntos religiosos com alguém? |
Quadro 2. Questionário SPIRIT para anamnese espiritual.
| Questionário SPIRIT para anamnese espiritual. | |
| Domínio | Sugestões de Perguntas |
| S – Spiritual belief system | |
| S: Sistema de crenças | Você tem uma afiliação religiosa formal? Você tem uma vida espiritual que é importante para você? |
| P – Personal spirituality | |
| P – Personal spirituality | De que maneira sua espiritualidade éimportante para você? |
| I – Integration with a spiritual community | |
| I: Integração com umacomunidade espiritual | Você pertence a algum grupo ou comunidade religiosa ou espiritual? |
| R – Ritualized practices and restriction | |
| R: Práticas ritualizadase restrição | Quais práticas específicas você realizacomo parte da vida religiosa ou espiritual? |
| I – Implications for medical care | |
| I: Implicações para aassistência médica | Você gostaria de discutir implicaçõesreligiosas ou espirituais da assistênciaà saúde? |
| T – Terminal events | |
| T: Eventos terminais | Existem aspectos particulares dos cuidados médicos que você deseja renunciar ou recusou por causa de sua religião/ espiritualidade? |
Da Anamnese Espiritual à Psicoterapia
Os questionários fornecem roteiros essenciais para a condução da anamnese e a coleta de informações sobre a espiritualidade do paciente. Essa dimensão é fundamental, pois auxilia o indivíduo tanto nos momentos de bem-estar quanto nos de dificuldade. A inclusão da anamnese espiritual evidencia que é possível abordar a religiosidade de modo respeitoso, ético e sempre centrado nas necessidades do paciente.
A atitude hostil da psicologia em relação à religião faz com que muitos pacientes deixem de falar sobre suas experiências, temendo o julgamento dos profissionais. A escuta acolhedora é o mínimo que se espera de um profissional em relação ao paciente. Compreender o meio (religioso ou não) em que o paciente cresceu e como ele se define espiritualmente/religiosamente fornece indicativos importantes sobre seu sistema de crenças e valores, os quais influenciaram diretamente a formação de sua subjetividade. Portanto, a psicoterapia deveria incluir a dimensão espiritual como um caminho essencial para o conhecimento do paciente e para o estabelecimento de um vínculo terapêutico mais acolhedor e efetivo.
Contudo, é fundamental que o profissional possua conhecimentos científicos acerca dos fenômeno religioso e como pode impactar a vida e o desenvolvimento individual, assim como sobre as religiões, suas características gerais, história, e vivências espirituais.. Por exemplo, se um paciente afirma que é ‘evangélico’, essa informação, embora importante, precisa ser devidamente investigada, pois o termo ‘evangélico’ representa uma ampla categoria dentro do cristianismo, que abrange tradições históricas, pentecostais e neopentecostais, cada uma com sua própria história, doutrinas e teologia. Nesse sentido, a psicologia da religião se torna crucial, oferecendo a fundamentação científica necessária para as práticas e teorias acerca da religião
A integração da espiritualidade no processo psicoterapêutico permite ao terapeuta uma compreensão mais profunda da história familiar do paciente, auxiliando na identificação de traumas relacionados à religião, de seus medos, e potencializando as intervenções baseadas no contexto simbólico individual. No entanto, ainda há um longo caminho para o pleno reconhecimento da relevância dessa integração para a psicoterapia, tal como ocorreu com a anamnese espiritual.
Você já conhecia a anamnse espiritual? Deixe um comentário!!
Referências Bibliográficas
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA (CFP). Resolução CFP nº 7, de 6 de abril de 2023. Estabelece normas para o exercício profissional em relação ao caráter laico da prática psicológica e revoga a Resolução CFP nº 01/2009. Brasília, DF: CFP, 2023. Disponível em:https://atosoficiais.com.br/cfp/resolucao-do-exercicio-profissional-n-7-2023-estabelece-normas-para-o-exercicio-profissional-em-relacao-ao-carater-laico-da-pratica-psicologica?origin=instituicaohttps://atosoficiais.com.br/cfp/resolucao-do-exercicio-profissional-n-7-2023-estabelece-normas-para-o-exercicio-profissional-em-relacao-ao-carater-laico-da-pratica-psicologica?origin=instituicao . Acesso em: 22/02/2026
PÓVOAS, Fabiani Tenório Xavier; SANTOS, Amuzza Aylla; TREZZA, Maria Cristina Soares Figueiredo; MONTEIRO, Elaine Kristhine Rocha; SANTOS, Regina Maria dos; SANTOS, Raissa Fernanda Evangelista Pires dos. A anamnese espiritual como base para a integralidade do cuidado em saúde. Revista de Enfermagem UFPE on line, Recife, v. 9, n. 6, p. 8322–8332, 2015. DOI: 10.5205/1981-8963-v9i6a10593p8322-8332-2015. Disponível em: https://periodicos.ufpe.br/revistas/revistaenfermagem/article/view/10593 . Acesso em: 20 fev. 2026.
Esporcatte R, Junior AA, Almeida-Moreira A, Pinto IMF, Moriguchi EH. Espiritualidade: do conceito à anamnese espiritual e escalas para avaliação. Rev Soc Cardiol Estado de São Paulo. 2020;30(3):306-14. Disponivel em: https://socesp.org.br/revista/pdfjs/web/viewer.html?arquivo=14539786341602079571pdfpt02_revistasocesp_v30_03.pdf&edicoes=1 .
DE QUEIROZ , C. M. .; ABDALLA , I. R. .; ARAGÃO , R. D. D. .; HERMITA , R. P. de M. . Anamnese espiritual e relação médico-paciente: revisão e reconstrução de um instrumento cotidiano: Spiritual anamnesis and doctor-patient relationship: review and reconstruction of a daily routine instrument. STUDIES IN HEALTH SCIENCES, [S. l.], v. 3, n. 2, p. 1128–1141, 2022. DOI: 10.54022/shsv3n2-039. Disponível em: https://ojs.studiespublicacoes.com.br/ojs/index.php/shs/article/view/560 . Acesso em: 20 feb. 2026.
Psicólogo clínico junguiano graduado pela Ufes. Especialista em Psicologia Clínica e da Família pela Faculdade Saberes; especialista em Teoria e Prática Junguiana pela Universidade Veiga de Almeida e especialista em Acupuntura Clássica Chinesa IBEPA/FAISP; com formação em Hipnose Ericksoniana pelo Instituto Milton Erickson do Espírito Santo. É professor e diretor do CEPAES. Atua desde 2004 em consultório particular. Coordenador do Blog do Jung no Espirito Santo (www.psicologiaanalitica.com)



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