A Dimensão Religiosa na Clínica: Desafios e Atitudes Profissionais

A Dimensão Religiosa na Clínica: Desafios e Atitudes Profissionais

Quando falamos da relação entre clínica psicológica, atendimento e religião, a resposta inicial é quase sempre categórica: ‘isso não pode’ ou ‘religião e psicologia não se misturam’. Essa reação ocorre, na maioria das vezes, sem sequer ouvir o que o outro tem a se dizer. Não falamos de uma mistura da psicologia e religião, mas do inevitável encontro, que pode ocorrer de forma silenciosa, imperceptível ou de forma pronunciada de acordo com a atitude do profissional e da atitude religiosa/espiritual do paciente.

Com frequência, o discurso que se diz “defensor” da ética se torna raso e com pouca percepção crítica sobre a relação terapêutica e a importância da religiosidade para o paciente. Isso ocorre porque a ética não se refere apenas à proteção do paciente contra o proselitismo ou a intolerância religiosa, mas, sobretudo, à compreensão adequada da sua religiosidade e a um manejo respeitoso e acolhedor que não negligencie suas necessidades religiosas.

Ancona-Lopez (1999) aponta duas dificuldades para o trabalho clínico com a religião: “A primeira é de ordem técnica. A inclusão da religiosidade na prática psicológica exige meios para pesquisar a religiosidade e manejar o tema no atendimento clínico” (p. 77). O segundo desafio reside no fato de a maioria das abordagens em psicologia não incluir a religiosidade em seus estudos, o que priva o profissional de referências adequadas para pensar e avaliar os conteúdos religiosos quando surgem na clínica.

Essas dificuldades se expressam nas atitudes dos profissionais em relação à religião, assim como na reflexão das habilidades necessárias para lidar com o fenômeno religioso.

Atitudes frente à religião

A dificuldade em lidar com a religião no contexto clínico pode gerar atitudes variadas no manejo. Ancona-Lopez (1999) apresentou um modelo proposto por David M. Wullf para organizar e descrever as atitudes básicas de profissionais e clientes frente ao fenômeno religioso. É importante ressaltar que este não se trata de uma classificação rígida, mas sim de um modelo compreensivo, visto que os profissionais podem modificar sua atitude ao longo do tempo.

O modelo proposto por Wullf possui dois eixos: um vertical, relacionado à inclusão ou exclusão da transcendência; e um horizontal, que se refere ao tipo de interpretação dada às crenças, ritos e demais expressões de fé — se é uma interpretação literal ou simbólica. Dos quadrantes resultantes, temos as atitudes básicas, as quais são expostas no quadro a seguir.

(Ancona-Lopez, 1999, p.78)

A negação literal é a atitude em que o profissional e/ou o paciente rejeitam a linguagem, metáforas ou qualquer conteúdo associado ao campo religioso. Com esta atitude, a religião ou a espiritualidade são compreendidas como algo a ser eliminado; muitas vezes, o discurso antirreligioso se esconde por trás do laicismo. Neste contexto, os profissionais que assumem essa postura tendem a se fechar à experiência religiosa de seus pacientes, seja considerando-a um sintoma, imaturidade ou sinal de irracionalidade. O desprezo pessoal pela religião pode resultar em negligência das necessidades religiosas dos pacientes.

A afirmação literal é a atitude em que o profissional e/ou paciente, utilizam da sua própria religião e espiritualidade para afirmar e qualificar o fenômeno religioso na clínica. A ciência provê técnicas, contudo, as interpretações são orientadas a partir de sua concepção religiosa do mundo. Deste modo, esses profissionais buscam abordagens que não se choquem com sua matriz religiosa. Nesse espectro temos todas as psicologias religiosas. Assim, a perspectiva religiosa do profissional pode ser um impeditivo para o acolhimento dos pacientes de outros espectros religiosos. 

A interpretação literal da religião, similar à negação literal, a trata como um fenômeno social a ser explicado exclusivamente pela razão. Isso resulta em um reducionismo do fenômeno religioso a conceitos estritamente psicológicos ou a estudos de áreas correlatas. A vivência subjetiva e transcendente é, assim, desconsiderada ou reduzida a categorias psicológicas, biológicas, ambientais e sociais. Apesar dessa visão que tende a menosprezar o fenômeno religioso, paradoxalmente, admite-se que possa haver algum benefício para o paciente. Essa atitude reflete uma percepção de laicidade entendida como neutralidade religiosa, que se manifesta na manutenção de uma distância e na evitação do manejo da religiosidade na psicoterapia.

A interpretação restaurativa reconhece a realidade transcendente, mas sem julgar os fenômenos religiosos. Nessa perspectiva, o profissional acolhe, compreende com o paciente sua religiosidade, identificando sentimentos, percepções, princípios que auxiliem em sua organização, regulação emocional e interações sociais. Ancona-Lopez (1999) afirma que 

A atitude de interpretação restauradora implica humildade epistemológica. As realidades da religião, rituais, símbolos e metáforas são reconhecidos em sua multidimensionalidade e a pessoa vivencia o poder iluminativo e a densidade dos símbolos. Cliente e psicólogo abrem-se os mitos, rituais e pensamentos metafóricos abordando a religião por seus referenciais experienciais: sentimentos profundos, estados internos que vão desde vivências cotidianas a estados transcendentais, sutis ou claramente reconhecidos como místicos.   (p. 81)

A interpretação restaurativa possibilita o acolhimento, manejo e construção de perspectivas a partir do referencial simbólico-religioso do paciente. Essa atitude exige um esforço do profissional para compreender profundamente os significados dos símbolos e metáforas religiosas apresentadas pelos pacientes Hamazaki (2024) sugere para o manejo clínico de experiências religiosas que o profissional desenvolve competências como

  • Consciência religiosa
  • Conhecimento religioso
  • Habilidades religiosas

Abaixo está a avaliação, correção e sugestões de melhoria para o texto fornecido:

A consciência religiosa exige um rigoroso autoconhecimento do psicoterapeuta sobre sua própria religiosidade ou irreligiosidade, seus valores e sistemas de crenças. Tais elementos exercem um significativo impacto em sua visão de mundo, em seus sentimentos e na forma como estabelece relações com outras manifestações de fé. Portanto, não basta apenas colocar o tema “entre parênteses”, como sugere a fenomenologia; é imprescindível um processo contínuo de crítica e reconhecimento dos potenciais e limites inerentes à sua vivência religiosa.

O conhecimento religioso abrange a história, as origens, as crenças, as narrativas sagradas (mitos) e os ritos que compõem a religiosidade do paciente. Conhecer essas narrativas e estar aberto a buscá-las (quando desconhecidas) possibilita ao terapeuta se aproximar do paciente, compreender sua visão de mundo e, assim, auxiliar na distinção entre experiências de cunho patológico ou espiritual.

As habilidades religiosas indicam a capacidade do terapeuta de compreender e intervir, auxiliando o paciente a identificar aspectos positivos e transformadores em suas experiências espirituais ou religiosas. Essa habilidade envolve adequar a linguagem à realidade simbólica do paciente, utilizando metáforas mais pessoais e significativas. Auxilia também na compreensão de quando a experiência em questão é de natureza espiritual ou psicopatológica. Essa competência se desenvolve com o tempo, baseada no respeito ao paciente e em um estudo aprofundado das religiões, visando sempre o seu bem-estar.”

Existe muita discussão e receio na clínica acerca do manejo da religiosidade do paciente no processo psicoterapêutico. Isso se deve, em grande parte, a uma formação profissional inadequada e à exclusão da religiosidade como objeto de estudo da psicologia e ao medo de incorrer em falta ética simplesmente por abordar a religiosidade do paciente.  

Contudo, é  interessante observar que, em outras áreas da psicologia, como a hospitalar, a espiritualidade é vista como um recurso auxiliar de enfrentamento (coping), sendo amplamente utilizada em campos como a psico-oncologia e os cuidados paliativos, por exemplo. Inclusive, muitos médicos já aderem a instrumentos que possibilitam a “anamnese espiritual”, um recurso que visa compreender a história, a importância e as necessidades religiosas do paciente.

Se o paciente é religioso, sua espiritualidade inevitavelmente permeará o ambiente terapêutico. Assim, é fundamental que o profissional esteja capacitado para manejar e integrar essa dimensão de maneira apropriada.

Referências bibliográficas

ANCONA-LOPEZ, Marília. Religião e psicologia clínica: quatro atitudes básicas. In:MASSIMI, Marina e MAHFOUD, Miguel (Orgs.). Diante do Mistério: Psicologia e Senso Religioso. São Paulo: Edições Loyola, 1999, pp. 71-86.

HAMAZAKI, Edson Sigueyoshi. Experiências religiosas, espirituais e anômalas na psicoterapia: relatos dados por psicólogos. 2024. Tese (Doutorado em Ciência da Religião) – Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2024.  Disponivel em: https://repositorio.pucsp.br/jspui/handle/handle/43883 Acessado em 21/12/2025.

Psicólogo clínico junguiano graduado pela Ufes. Especialista em Psicologia Clínica e da Família pela Faculdade Saberes; especialista em Teoria e Prática Junguiana pela Universidade Veiga de Almeida e especialista em Acupuntura Clássica Chinesa IBEPA/FAISP; com formação em Hipnose Ericksoniana pelo Instituto Milton Erickson do Espírito Santo. É professor e diretor do CEPAES. Atua desde 2004 em consultório particular. Coordenador do Blog do Jung no Espirito Santo (www.psicologiaanalitica.com)

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