Deus como Realidade Psíquica: A experiência numinosa em C.G. Jung
Em março de 1959, Jung recebeu uma equipe da BBC em sua casa, em Küsnacht, para uma entrevista do programa de televisão ‘Face to Face’, conduzida por John Freeman. O programa, editado para ter meia hora de duração, foi exibido em 22 de outubro de 1959. Nessa entrevista, uma frase em particular se destacou, ecoou amplamente e ganhou diversas interpretações, que foi a resposta de Jung à pergunta sobre sua crença em Deus: ‘Eu sei. Não necessito crer, porque sei’
Com muita frequência, vemos afirmações e perguntas acerca de como Jung compreendia Deus.Deste modo, nesse texto vamos pensar acerca da visão de Jung sobre Deus. Tomando como ponto de partida a célebre frase, contudo vamos situá-la em seu contexto, para termos uma ideia do diálogo:
– Que tipo de educação religiosa seu pai lhe deu?
– Oh, éramos suiços reformados.
– E fez com que o senhor frequentasse regularmente a igreja?
– Isso era perfeitamente natural.Todo o mundo ia à igreja aos domingos.
– E o senhor acreditava em Deus?
– Ah, sim.
– E agora, ainda acredita em Deus?
– Agora?[Pausa.] É difícil responder. Eu sei. Não necessito crer, porque sei.
(McGuire, Hull, 1982, p. 375)
Essa assertiva de Jung gerou, ao longo das décadas, muitos comentários e críticas. Há pouco tempo, por exemplo, vi um post no Instagram ao qual havia sido acrescentada a frase ‘que Deus existe’. Reagi, à época, argumentando que Jung não dissera isso. Contudo, é muito comum notarmos expressões de admiração a respeito do se julga que Jung declarou sobre Deus.
Mas, afinal, o que Jung quis dizer nessa frase? Não sou pretensioso a ponto de ‘colocar palavras’ em sua boca. Considero mais honesto convidar o leitor a ler uma carta na qual ele explica seu ponto de vista e o que realmente afirmou.
To Mr. Leonard
King’s College
Newcastle upon Tne/Inglaterra
05.12.1959
Dear Sir,
Com sua maneira característica, o senhor Freeman lançou-me a pergunta’, a ‘que o senhor se refere, de modo surpreendente, e eu fiquei perplexo por um momento e disse a primeira coisa que me veio à mente. Assim que a resposta ultrapassou o”limite de meus dentes” percebi que havia dito algo controvertido, embaraçoso e inclusive ambíguo. Por isso fiquei à espera de cartas como a sua. Note bem que eu não disse: “Há um Deus”. Eu disse:”Eu não preciso crer em Deus, eu sei”. Isto não significa que eu sei de um certo Deus (Zeus, Alá, Javé, Deus-trino etc.), mas antes que eu sei que sou confrontado obviamente com um fator desconhecido em si mesmo, que eu chamo “Deus” in consensu omnium (quod semper, quod ubique, quod ab omnibus creditur)². Eu me lembro dele, eu o invoco sempre que uso seu nome, tomado de angústia ou medo, sempre que digo involuntariamente “meu Deus”. Isto acontece quando encontro alguém ou alguma coisa mais forte do que eu. É um nome adequado para todas as emoções dominadoras em meu próprio sistema psíquico, que subjugam minha vontade consciente e usurpam o controle sobre mim. Este é o nome que dou a todas as coisas que atravessam de maneira violenta e temerária o meu caminho voluntariamente traçado, a todas as coisas que frustram meus pontos de vista subjetivos, meus planos e intenções e que mudam o curso de minha vida para melhor ou pior. De acordo com a tradição, chamo “Deus” o poder do destino neste aspecto positivo ou negativo, ainda mais que sua origem está além de meu controle; chamo-o de um “Deus pessoal”, pois meu destino significa na verdade eu mesmo, sobretudo quando aquele poder se aproxima de mim, na forma da consciência, como a vox Dei com a qual posso até mesmo conversar e discutir.(Nós agimos e, ao mesmo tempo, sabemos que agimos. Somos ao mesmo tempo sujeitos e objetos.)Contudo, consideraria intelectualmente imoral admitir que minha concepção de Deus fosse igual à do Ser universal e metafísico das confissões ou “filosofias”. Não cometi a impertinência de uma hipóstase e não me atrevi a uma qualificação arrogante como:”Deus só pode ser bom”. Só minha experiência pode ser boa ou má, mas sei que a vontade superior se baseia num fundamento que transcende a imaginação humana. Desde que sei de minha colisão com uma vontade superior no meu próprio sistema psíquico, eu sei de Deus, e se eu ousasse a hipóstase ilegítima de minha imagem, eu diria que sei de um Deus para além do bem e do mal, que mora em mim como em toda outra parte: Deus est circulus cuius centrum est ubique, cuius circumferentia vero nusquam3 .
Espero ter respondido à sua pergunta.
I remain, dear Sir,
Yours sincerely,
(C.G. Jung)(Jung, 2018,p.234-5)
Nela, Jung explica que respondeu não respondeu a pergunta com uma profissão de fé, mas fundamenta em toda uma vida inteira lidando “Deus” como uma experiência psíquica. Assim, para Jung, Deus não era um objeto de fé, mas um fato da experiência. Quando ele diz que “sabe”, ele se refere ao impacto avassalador que certas forças internas exercem sobre o ego, as quais podem ser compreendidas como numinosas, divinas ou sobrenaturais.
Nesse sentido, Deus pode ser a personificação psicológica de tudo o que é autônomo, transcendente à vontade e numinoso na psique humana. Ele retira Deus da abstração teológica e o coloca no centro da experiência vivida: no susto do medo, na força da emoção arrebatadora e no “voto vencido” do ego diante do destino. Ao fazer isso, Jung validava a religiosidade como uma função psicológica natural, sem precisar validar os dogmas específicos de qualquer religião organizada.
Jung nunca abordou “Deus” numa perspectiva metafísica ou teológica. Em vez disso, ele se referia a Deus como uma realidade imanente, psíquica, isto é, a imagem de Deus (imago Dei). Esta última foi relacionada ao arquétipo do Self, como princípio de organização e totalidade. Assim, experimentar a Deus é vivenciar a realização do Si-mesmo, visto que o divino, de um ponto de vista psicológico, não é uma força externa e distante, mas uma realidade que atua no interior mais profundo do indivíduo. No livro “Resposta a Jó”, Jung afirma
O que essas pessoas muitas vezes ignoram ou não conseguem compreender é que considero a psique como uma realidade. (…). Deus é uma realidade psíquica evidente, e não um dado físico, ou seja, é um dado que só pode ser constatado do ponto de vista psíquico, e não do ponto de vista físico. A essas pessoas também não ocorreu pensar que a psicologia religiosa se divide em dois campos, nitidamente distintos, quais sejam, de um lado, a psicologia do homem religioso e, de outro, a psicologia da religião ou dos conteúdos religiosos. (JUNG, 1998, p.106)
Deste modo, como uma realidade psíquica, Deus é compreendido como a totalidade que congrega todas as contradições possíveis, positivas e negativas. Com essa compreensão de totalidade, Jung rejeitava as doutrinas teológicas do summum bonum (bem supremo) e da privatio boni (privação do bem) que explicaria o mal, considerando que a totalidade envolvia tanto bem como o mal.
Deus tem dois aspectos terríveis: de um lado, um mar de graça que se choca com o lago de fogo ardente, e de outro, a luz do amor que brilha por sobre um abismo tenebroso de calor, e a respeito do qual se lê: “ardet non lucet” – queima, mas não ilumina. (JUNG, 1998,p.93)
Essa ambivalência poderia ser expressa através do conceito de numinoso, de Rudolf Otto, que define a experiência do divino como o mysterium tremendum et fascinans, ou seja, que se manifesta como um totalmente outro (mysterium, aliud valde), terrificante, avassalador (tremendum) e fascinante(fascinans) que atrai e subjuga o indivíduo.
Com o conceito de numinoso, Rudolf Otto descrevia os efeitos irracionais do sagrado ou divino no indivíduo. Assim, ele não abordava o transcendente em si, mas sim o seu efeito sobre o ser humano: uma força dinâmica, autônoma e avassaladora que se apodera do indivíduo, independentemente de sua vontade ou intelecto. Para a psicologia analítica, o numinoso é o reflexo do sagrado ou divino no ser humano, correspondendo às manifestações arquetípicas que Jung observava em sua prática clínica.
Assim, o numinoso é um termo que ajuda a descrever o aspecto ctônico, psicoide e irracional da realidade psíquica. Nessa perspectiva, Jung trouxe a compreensão de que as experiências religiosas correspondem à realidade psíquica.
Ao considerar Deus ou a experiência de Deus como uma realidade psíquica e o numinoso como expressão do inconsciente coletivo, Jung abriu a possibilidade de uma compreensão da religiosidade a partir de uma perspectiva psicodinâmica. Desse modo, as vivências religiosas dos pacientes são respeitadas e validadas como realidades psíquicas.
Considerações finais
Jung sempre insistiu que não era filósofo ou teólogo, posicionando-se estritamente como um psicólogo empírico. Com isso, ele queria dizer que não lhe caberia fazer afirmações sobre a existência ou não de Deus, pois sua área de estudo era a psique, e não a metafísica. Deste modo, é fundamentalmente desonesto utilizar as afirmações de Jung para sustentar ou negar quaisquer crenças transcendentes, pois ele abordava esses temas apenas em sua manifestação psíquica.
Para Jung, a crença e a descrença são realidades psíquicas legítimas, para ele o importante era que o indivíduo possuísse “um ponto de vista filosófico ou religioso capaz de enfrentar com êxito as vicissitudes da vida”(McGuire, Hull, 1982, p. 392).
Com sua profunda compreensão da realidade psíquica, Jung nunca teve a intenção de reduzir ou invalidar as religiões. Seu objetivo era, antes, integrá-las ao campo da psicologia, aproveitando seu potencial em benefício dos pacientes. Dessa forma, a perspectiva de Jung era acolhedora em relação a todas as religiões.
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Referências Bibliográficas
McGUIRE, W.; HULL, R.F.C. (org.). C. G. Jung: Entrevistas e Encontros. São Paulo: Cultrix, 1982.
JUNG, C. G. Cartas: 1956-1961 (Vol. 3). Petrópolis: Vozes, 2003.
JUNG, C.G, Resposta à Jó, Petrópolis: Vozes, 1998.
Psicólogo clínico junguiano graduado pela Ufes. Especialista em Psicologia Clínica e da Família pela Faculdade Saberes; especialista em Teoria e Prática Junguiana pela Universidade Veiga de Almeida e especialista em Acupuntura Clássica Chinesa IBEPA/FAISP; com formação em Hipnose Ericksoniana pelo Instituto Milton Erickson do Espírito Santo. É professor e diretor do CEPAES. Atua desde 2004 em consultório particular. Coordenador do Blog do Jung no Espirito Santo (www.psicologiaanalitica.com)


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