A Religiosidade e Saúde: O Coping Religioso-Espiritual

A Religiosidade e Saúde: O Coping Religioso-Espiritual

A relação entre Religião/Espiritualidade e saúde existe desde os primórdios da humanidade. No final do século XIX, com o desenvolvimento da psicologia e da psiquiatria, os cuidados com a psique foram apurados e profissionalizados, afastando-se de influências religiosas.

Contudo, no final dos anos 80, estudos sobre como a religião influenciaria a saúde levaram ao desenvolvimento da noção de coping religioso , vindo a se consolidar ao longo dos anos 90,  tendo como principal expoente o pesquisador Kenneth Pargament. O termo coping sem uma tradução exata, que pode ser compreendida como “enfrentamento” ou “lidar com”, assim o  coping religioso-espiritual (CRE) pode ser definido como 

um processo onde a pessoa, por meio de comportamentos religiosos, crenças ou por sua espiritualidade, enfrenta e/ou lida com situações estressantes em sua vida, podendo apresentar-se de duas maneiras: positivo ou negativo (Farinha F. T et al,  2021, p.2-3).

Trabalhar com o CRE implica no reconhecimento do aspecto terapêutico das religiões. Embora não seja citado nas atuais pesquisas acerca de CRE, Jung foi um dos primeiros a pontuar o aspecto positivo das religiões. Segundo o mesmo, 

O médico psicoterapeuta não pode ignorar por muito tempo a existência de sistemas religiosos de cura – se nos é permitido descrever a religião sob este aspecto – e menos ainda o teólogo, na medida em que ele se empenha na cura animaram [sic] (a cura das almas), pode dar-se ao luxo de ignorar as experiências da psicologia médica. (Jung, 2011  pr. 462)

A compreensão de Jung de que as religiões têm um aspecto terapêutico ganha uma perspectiva contemporânea ao considerarmos que elas oferecem métodos de coping, que atuam por meio de cinco objetivos centrais: a busca por significado, por controle, por conforto espiritual, por intimidade com Deus e com outras pessoas, e por transformação de vida (Foch et al., 2017).

Coping positivo e Negativo

Naturalmente, a religião não oferece apenas respostas positivas, podendo em muitos casos atuar de forma contrária ao processo de saúde. Essas atuações são categorizadas em CRE positivo (as benéficas) e CRE negativo (as prejudiciais).

Assim, a CRE positiva reflete uma relação de segurança com o transcendente (por exemplo, um Deus amoroso e protetor), o que possibilita uma visão de mundo suficientemente boa. Por outro lado, a CRE negativa reflete uma visão negativa e punitivista de Deus, gerando insegurança. Nessa perspectiva, o mundo é visto como imerso em uma guerra espiritual, com entidades (demônios) que causam sofrimento; as adversidades, nesse contexto, seriam expressão da punição de Deus sobre o paciente.

A CRE positiva atua como um mecanismo de proteção clínica, relacionando-se a maiores níveis de qualidade de vida, bem-estar psicológico e resiliência, além de contribuir para menores índices de depressão e ansiedade. Por outro lado, a CRE negativo possui um potencial destrutivo, resultando no agravamento do estado de saúde física e mental, e levando a aumentos significativos nos níveis de depressão e ansiedade e a uma subsequente redução na qualidade de vida.

É normal que um indivíduo apresente estratégias de CRE  positivas e negativas. Panzini e Bandeira (2005) apontam que, embora um indivíduo possa se valer de ambas simultaneamente, o impacto destrutivo do coping negativo excede os benefícios do CRE positivo, sendo necessárias duas estratégias de CRE positivo para equilibrar uma de CRE negativo.

Estilos de Coping

Kenneth Pargament, um dos principais estudiosos do coping religioso-espiritual, descreveu quatro estilos de coping: 

Autodireção (*Self-directing) :Neste estilo, o indivíduo é o agente ativo e o principal responsável pela solução da situação. A percepção de Deus é mais passiva, sendo Ele visto como Aquele que concede a liberdade e os recursos necessários para que a pessoa assuma o controle de sua vida e resolva seus problemas.

Embora pareça secular ou menos religioso, o estilo autodirigido pode ser positivo quando o indivíduo percebe sua autonomia como um dom concedido por Deus para a resolução de seus problemas ou Deus o fortalecendo para resolvê-los.Esse estilo pode apresentar um aspecto negativo for baseado em uma ruptura ou mágoa com a religião (“Deus me abandonou, então tenho que me virar sozinho”), com um sentimento de abandono.

Delegação (Deferring): Este estilo é o oposto contrário do anterior, neste estilo o sujeito é passivo. Ele entrega toda a responsabilidade da solução a Deus, esperando passivamente que Ele assuma o controle e solucione os problemas em seu lugar.

Pode ser considerado positivo quando a pessoa enfrenta situações onde não tem controle real (ex: um luto ou diagnóstico terminal). Nesses casos, “entregar a Deus” reduz a ansiedade e é uma estratégia de adaptação positiva. Por outro lado, pode torna-se negativo quando o paciente assume uma postura excessivamente passiva em situações onde ele deveria agir. Por exemplo, não seguir o tratamento  esperando apenas o milagre. Isso reflete uma esquiva, que é prejudicial à saúde.

Colaboração (Collaborative): Este é um estilo de co-responsabilidade, em que tanto o indivíduo quanto Deus são agentes ativos. O sujeito entende que atua em uma parceria com Deus, colaborando de forma conjunta no processo de enfrentamento e resolução dos problemas De forma geral, é um estilo positivo e maduro  onde a confiança e a responsabilidade caminham juntas.

Súplica (Pleading ou petitionary): Este estilo é caracterizado pela tentativa do indivíduo de influenciar a vontade de Deus. A pessoa ora, e suplica para que Deus intervenha de forma direta no seu sofrimento (como a intercessão por um milagre) para que tudo se resolva. Este estilo tende a ser basicamente negativo, pois o individuo sente que precisa “implorar” ou “barganhar” com Deus. Se a prece não é atendida conforme o esperado, surge o sentimento de abandono, raiva de Deus ou culpa (“Deus não me ouve porque sou pecador”), prejudicando o processo de cuidado.

O CRE na Clínica

Para compreender o CRE na clínica, o terapeuta deve buscar compreender as questões espirituais e religiosas dos pacientes. Isso significa buscar entender qual o papel que a religião ocupa ou ocupou na vida do paciente. Assim, é importante que o terapeuta demonstre sensibilidade e respeito para acolher a narrativa religiosa do paciente. Podendo, assim,  avaliar quais estratégias ou estilos de coping o paciente utiliza.

Quando o paciente religioso apresenta um CRE positivo, é importante encorajar e fortalecer o CRE Positivo, assim o psicoterapeuta pode incentivar as práticas espirituais(como oração), , meditação, perdão, leitura de livros sagrados e a busca por apoio prático da congregação. 

No caso do CRE negativo, o psicoterapeuta pode desencorajar essas estratégias negativas, oferecendo recursos psicológicos para que o paciente as elabore e atenuando seus conflitos com o sagrado. Devemos notar que isso não significa induzir a descrença, mas trabalhar na forma como o paciente lida com seu sistema de crenças, podendo reinterpretar o sistema sem abandoná-lo, possibilitando uma atitude mais positiva em relação ao seu momento.

O CRE resgata o potencial terapêutico da espiritualidade, algo que Jung destacava quando dizia que 

Não só o cristianismo com sua simbólica salvífica, mas de um modo geral todas as religiões, e mesmo as formas mágicas das religiões dos primitivos, são psicoterapias, são formas de cuidar e curar os sofrimentos da alma e os padecimentos corporais de origem psíquica. (Jung, 1999, pr 20)

Através das religiões, é possível acessar um campo simbólico que integra dimensões da existência como o psíquico, o somático e o transcendente. Jung compreendia que a psique possui uma função criadora de símbolos, que pode ser entendida como uma função religiosa. Embora essa função seja evidente em pessoas religiosas, ela também se manifesta em indivíduos não-religiosos ou ateístas, produzindo símbolos, mas sem o colorido cultural característico das religiões institucionalizadas.

Referências bibliográficas

FarinhaF. T.; BomG. C.; RazeraA. P. R.; PradoP. C.; MatioleC. R.; MondiniC. C. da S. D.; TretteneA. dos S. Repercussões do coping religioso/espiritual positivo e negativo entre cuidadores informais: revisão integrativa. Revista Eletrônica Acervo Saúde, v. 13, n. 8, p. e8521, 9 ago. 2021. Disponível em: https://doi.org/10.25248/reas.e8521.2021 

FOCH, Gisele Fernandes de Lima; SILVA, Andressa Melina Becker; ENUMO, Sônia Regina Fiorim. Coping religioso/espiritual: uma revisão sistemática de literatura (2003-2013). Arq. bras. psicol.,  Rio de Janeiro ,  v. 69, n. 2, p. 53-71,    2017 .   Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809-52672017000200005&lng=pt&nrm=iso >. acessos em  02  mar.  2026.

PANZINI, R. G.; BANDEIRA, D. R.. Escala de coping religioso-espiritual (Escala CRE): elaboração e validação de construto<A NAME=”n2″></A>. Psicologia em Estudo, v. 10, n. 3, p. 507–516, set. 2005. disponível em: https://www.scielo.br/j/pe/a/C6VxW6YsyYZyc4xH8jkr7Wn/?format=pdf&lang=pt 

JUNG, C.G., Escritos Diversos, Petrópolis: Vozes, 2011

JUNG, C.G. A prática da Psicoterapia, Petrópolis: Vozes, 1999.

Psicólogo clínico junguiano graduado pela Ufes. Especialista em Psicologia Clínica e da Família pela Faculdade Saberes; especialista em Teoria e Prática Junguiana pela Universidade Veiga de Almeida e especialista em Acupuntura Clássica Chinesa IBEPA/FAISP; com formação em Hipnose Ericksoniana pelo Instituto Milton Erickson do Espírito Santo. É professor e diretor do CEPAES. Atua desde 2004 em consultório particular. Coordenador do Blog do Jung no Espirito Santo (www.psicologiaanalitica.com)

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