O Perigo da Simplificação: Trauma, Criança Ferida e o Movimento de Cura Interior

O Perigo da Simplificação: Trauma, Criança Ferida e o Movimento de Cura Interior

Recentemente, notei a recorrência de postagens em minhas redes sociais sobre ‘cura interior’, em particular o foco na cura dos traumas e da criança ferida. Embora eu já ouvisse sobre o tema desde os anos 80 e 90, fazia algum tempo que não via essas divulgações. O que, de fato, me chamou a atenção foi a abordagem simplista dada ao trauma e à criança ferida, assuntos correlatos que venho estudando há alguns anos. 

Desde meados dos anos 60, o “movimento de cura interior” chegou ao Brasil e se estabeleceu em diversas denominações cristãs. Este movimento integrou técnicas psicológicas e psicanalíticas com a fé cristã, abordando e tratando de problemas psicológicos como se fossem apenas questões espirituais.

Neste texto, vamos pensar sobre a noção da “criança interior” ou “criança ferida” e analisar a dimensão da problemática da cura interior.

A Criança Ferida e Trauma

A infância é um tema sensível para todos nós. Para algumas pessoas, ela tem o sabor da saudade, de um paraíso perdido, mas para outras, o sabor amargo da dor. Na psicologia analítica clássica, é normal abordar a infância a partir do Arquétipo da Criança e da Criança Interior, que são duas dinâmicas muito próximas.

Quando falamos do Arquétipo da Criança, estamos nos referindo àquele aspecto coletivo, humano e mais basal que subjaz às representações da infância. Ele é a própria manifestação da “mais poderosa e inelutável ânsia em cada ser humano, ou seja, a ânsia de realizar a si próprio” (JUNG, 2000, p.171). Por um lado, o arquétipo da criança aponta para as representações míticas da infância (como o menino Jesus, Hércules, os Êres, dentre muitos outros), indicando espontaneidade, criatividade, pureza e inocência; por outro, ele indica o potencial de transformação e o impulso à expansão.

A criança interior, por sua vez, representa o complexo formado pelas memórias, sentimentos e sensações pessoais relacionados à infância, como nossas relações com as figuras parentais, ambientes e relacionamentos nesse período. Na maioria das vezes, o complexo da criança se manifesta através de sentimentos e comportamentos que podem afetar a capacidade adaptativa, as relações interpessoais e a autoestima.

O arquétipo da criança constitui o núcleo arquetípico do complexo da criança interior. Como estrutura impessoal e coletiva, o arquétipo representa a matriz da experiência humana universal, estando presente em nossa psique desde o nascimento. Ele serve de centro organizador para o desenvolvimento do complexo da criança interior. Nossas vivências durante a infância e adolescência são atraídas por essa estrutura inata, que é atualizada e assume, assim, um contorno pessoal único, determinado pelas experiências individuais que tivemos em nossa infância.

É nesse sentido que Jung afirma, 

No adulto está oculta uma criança, uma criança eterna, algo ainda em formação e que jamais estará terminado, algo que precisará de cuidado permanente, de atenção e de educação. Esta é a parte da personalidade humana que deveria desenvolver-se até alcançar a totalidade. Mas o homem de nosso tempo se acha imensamente distante dessa totalidade. (JUNG, 2006, p.175)

Nem sempre as experiências da infância são positivas, muitas vezes temos experiências negativas de dor e sofrimento deixando marcas. Contudo, quando as experiências da infância são excessivamente negativas, cuja dor, negligência e sofrimento excedem a capacidade de elaboração do ego infantil ou seja, um sofrimento insuportável para a criança, dizemos que ela vivenciou um trauma. 

O trauma é uma ferida profunda na alma, que afeta a capacidade e a forma de se relacionar (consigo e com o outro), de se perceber e de se sentir em si mesmo. Assim, na maioria das vezes em que nos referimos à ‘criança interior ferida’, estamos falando de um processo traumático que resultou em uma profunda ferida e num estado de divisão interna (dissociação) que persiste ao longo da vida.

Todos crescem em uma casa, ou em uma sociedade, onde apenas partes da individualidade têm permissão para florescer, enquanto outras, julgadas inaceitáveis, ficam trancadas em um recesso oculto do ser. Poucas pessoas conseguem chegar à metade de suas vidas e dizer que passaram esse tempo em um ambiente onde foram vistas integralmente, espelhadas, aprovadas e que tiveram a permissão de viver plenamente. Assim, concluímos que todos têm algum tipo de sistema protetor/opressor – que os psicanalistas denominam “superego sádico”. Se não houver trauma durante a infância, o sistema não será tão extremo, primitivo ou rígido, mas ainda limita o potencial e impedirá a vida plena.

(Kalsched, in Sieff, 2019, p. 47) 

A criança interior ferida é uma imagem que representa tanto os traumas da infância quanto suas repercussões na vida adulta. Os processos defensivos, que visam tornar a experiência traumática minimamente ‘suportável’, manifestam-se de diferentes formas. como o esquecimento ou encobrimento  quando não há lembrança das vivências, mas sim sentimentos constantes de culpa e inadequação, depressão, ansiedade,  dificuldades com o próprio corpo (distorção de imagem, aceitação e somatizações), profunda autocrítica e autocobrança, além de relacionamentos superficiais e distantes. 

Muitas vezes, o trauma relacional infantil não é reconhecido pela ausência de uma lembrança clara; em outros casos, a pessoa guarda o segredo como se fossem apenas ‘fatos passados’, algo que, no entanto, impacta negativamente todas as áreas de sua vida. O sofrimento é constante, e o trabalho com vítimas de trauma exige um manejo cuidadoso, afetivo e que respeite o tempo individual do paciente. 

“A Cura Interior”

O Movimento de Cura Interior ganhou notoriedade, especialmente entre os evangélicos de igrejas pentecostais e neopentecostais, e os católicos da Renovação Carismática Católica. Esse movimento, ao aliar elementos da religiosidade e da psicologia, gerou o que se chama de ‘psicologização da religião’, com uma ênfase no tratamento de “traumas” e da criança ferida. 

Para isso, o movimento utilizou técnicas muitas vezes contraindicadas para o contexto, como regressão hipnótica, Programação Neurolinguística (PNL) e, em alguns casos, constelação familiar. Soma-se a isso o fato de que, em geral, os ministrantes não possuíam o conhecimento ou a formação psicológica adequada para lidar com situações de maior gravidade.

Naturalmente, em situações menos complexas, essas técnicas podem apresentar resultados positivos. No entanto, em contextos mais graves, não apenas a obtenção de um resultado positivo é improvável, como a situação pode ser agravada. Isso ocorre devido ao risco de reviver a experiência traumática (como abusos e outras violências), intensificando a culpa e o sentimento de inadequação. Além disso, diante desses fracassos, a pessoa pode ser acusada de não possuir fé suficiente para a cura. 

Muitas pessoas acabam por abandonar tratamentos psicológicos e psiquiátricos como forma de expressar a fé na cura interior, algo que posteriormente se mostra um problema ainda mais grave, com piora no quadro geral. É importante ressaltar que essas pessoas que passaram por trauma, costumam estão fragilizadas que é necessário um percurso significativo de fortelcimento de ego, construção de segurança, vínculo para acessar e lidar com os sentimentos e sua história vivida. Assim, falar de forma reducionista de autoconhecimento, perdão, arrependimento, renúncia etc. como etapas lineares se torna motivo de frustração e mais sofrimento.

Deste modo, no tratamento do trauma devemos ter clareza e precisa de um ambiente de acolhimento e segurança que é construído ao longo do processo terapêutico. Não é algo que possa ocorrer rapidamente em eventos, workshops, seminários ou retiros. O tratamento de feridas profundas necessita de tempo, técnica e responsabilidade. 

No geral, os eventos de “Cura Interior” mobilizam uma forte descarga emocional (catarse) que, por si só, pode levar a uma sensação momentânea de bem-estar. No entanto, essa experiência não elabora o sofrimento real. Assim, a visão simplista do trauma e do sofrimento psíquico leva a uma intervenção rasa que não auxilia as pessoas que sofrem, nem psíquica nem espiritualmente.

Neste aspecto, não negamos a possibilidade de curas religiosas genuínas, mas alertamos que o espetáculo que muitas vezes envolve a “cura interior” não promove o tratamento efetivo de traumas. O uso de técnicas da psicologia camufladas de vivência espiritual, na verdade, não cura nem fortalece a fé, mas explora a crença das pessoas. É importante frisar: não desejamos diminuir a importância da fé ou da espiritualidade, mas sim salientar que um acompanhamento pastoral comprometido, bem fundamentado e que saiba distinguir as necessidades psicológicas das espirituais contribuiria muito mais para a saúde mental e espiritual do que as propostas simplistas de “cura interior”’.

O Cuidado Psicológico e o Cuidado Pastoral

O sofrimento humano sempre foi objeto do cuidado das religiões. Nos textos sagrados, as regras sobre alimentação, comportamentos e relacionamentos visavam, direta ou indiretamente, a saúde integral (física, psíquica, social e espiritual). Com o desenvolvimento da ciência, o cuidado da saúde se integrou, naturalmente, às ciências da saúde. No entanto, a vocação da religião para a saúde continua presente e se mostra complementar e indispensável a uma perspectiva integral do ser humano. 

Sendo a busca pela cura religiosa natural em contextos de fé, seria natural que as lideranças religiosas e os  profissionais de saúde adotassem uma postura de diálogo, compreensão e responsabilidade. É essencial que ambos compreendam e respeitem a amplitude da vivência espiritual e emocional do paciente.  

Jung reconhecia a importância da espiritualidade na vida das pessoas, numa perspectiva que ele nomeava como “atitude religiosa”. Essa atitude implica uma experiência profunda e de caráter transformador, que exige respeito, atenção e cuidado com os processos que transcendem o ego — sejam eles próprios do inconsciente ou aqueles que envolvem a experiência do Sagrado. Isso possibilita a expansão da vida, tornando-a plena de sentido e significado.

De todos os meus pacientes que tinham ultrapassado o meio da vida, isto é, que contavam mais de trinta e cinco anos, não houve um só cujo problema mais profundo não fosse o da atitude religiosa. Aliás, todos estavam doentes, em última análise, por terem perdido aquilo que as religiões vivas ofereciam em todos os tempos a seus adeptos, e nenhum se curou realmente, sem ter readquirido uma atitude religiosa própria, o que, evidentemente, nada tinha a ver com a questão de confissão (credo religioso) ou com a pertença a uma determinada igreja. (JUNG, 2013, pr 509)

É importante ressaltar que Jung compreendia que a atitude religiosa é uma função natural da psique humana que busca sentido e realização e não se restringe a uma religião ou mesmo a uma ou outra igreja. Jung vivia num contexto religioso onde a maioria dos seus pacientes eram essencialmente cristãos protestantes – e em número muito menor católicos e judeus. 

Jung ressaltava a importância de não menosprezar a ‘direção espiritual’ conduzida por pastores e padres. Infelizmente, no contexto protestante brasileiro, não há uma correspondência exata para a ‘direção espiritual’ apontada por Jung. O mais próximo seria o “acompanhamento pastoral” ou, em certos casos, processos de ‘discipulado’. Contudo, na maioria das vezes, estes não estabelecem a mesma proximidade e confiança que caracterizam a direção espiritual.

 Ele afirmou que

Todo psicoterapeuta inteligente se sentirá gratificado, se seus esforços forem apoiados e completados pela atuação do diretor espiritual. Mas os problemas da alma humana com os quais o pastor de almas e o médico se defrontam, a partir de posições contrárias, gerarão não poucas dificuldades, em grande parte por causa da diferença dos pontos de vista. Mas é precisamente deste embate que devemos esperar os estímulos mais fecundos para ambas as partes. (JUNG, 2013, pr. 552)

A proposta de Jung de trabalho conjunto, que respeita à formação religiosa do paciente, enfrenta um grande desafio na formação dos psicólogos e dos pastores. Por um lado, a formação em psicologia tende a evitar a discussão sobre a espiritualidade e a religiosidade dos pacientes; por outro, os seminários e faculdades de teologia negligenciam o aconselhamento pastoral, sendo visto de forma superficial. 

Essas limitações são superadas em contextos específicos, como equipes hospitalares que incluem capelães prestando cuidado pastoral ao lado de médicos, psicólogos e outros profissionais. Contudo, essa prática exige uma formação que, em geral, não é considerada fundamental nos seminários teológicos. 

O cuidado pastoral e o cuidado psicológico não são opostos, são apenas diferentes e atendem necessidades distintas vida.Assim, devem ser exercidos por pessoas capacitadas e responsáveis para lidar com o sofrimento da alma humana. 

Palavras Finais

Toda forma de cuidado exige atenção, respeito e responsabilidade. Experiências traumáticas representam uma dor profunda que nos confronta com os lugares mais sombrios da alma. Por isso, o manejo dessas situações requer conhecimento especializado e tempo adequado. Eventos ou retiros superficiais de “cura interior” podem, muitas vezes, agravar a condição de indivíduos que vivenciaram traumas.

A Cura Interior oferece uma visão simplista para problemas complexos. Distorcendo tanto a fé quanto a psicologia e,assim,  vemos discursos antigos ganhando novas roupagens. A preocupação com a saúde mental dos fiéis por parte de pastores é necessária e legítima, e deveria levar a uma parceria de acompanhamento psicológico e acompanhamento pastoral.

Referências bibliográficas

JUNG, C.G. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. Petrópolis: Vozes, 2000.

JUNG, C.G. O Desenvolvimento da Personalidade. Petrópolis: Vozes, 2006

JUNG, C.G. Escritos Diversos. Petrópolis: Vozes, 2006

SIEFF, D. F. Compreensão e Cura do Trauma Emocional, São Paulo: Paulus, 2019.

Psicólogo clínico junguiano graduado pela Ufes. Especialista em Psicologia Clínica e da Família pela Faculdade Saberes; especialista em Teoria e Prática Junguiana pela Universidade Veiga de Almeida e especialista em Acupuntura Clássica Chinesa IBEPA/FAISP; com formação em Hipnose Ericksoniana pelo Instituto Milton Erickson do Espírito Santo. É professor e diretor do CEPAES. Atua desde 2004 em consultório particular. Coordenador do Blog do Jung no Espirito Santo (www.psicologiaanalitica.com)

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