Indicação de livro : “Quando coisas ruins acontecem com pessoas boas” de Harold S. Kushner
Diante de adversidades, como uma doença ou a perda de um ente querido, as perguntas “Por que comigo?” ou “O que fiz para merecer isso?” surgem naturalmente. Quando a culpa não recai sobre nossas ações, somos invadidos por uma intensa dor e raiva direcionadas a Deus, o que nos leva a questionar a justiça divina. Esses sentimentos são agravados pelo discursos religioso que traz “ repostas fáceis” como “Deus sabe o que faz”, “há um propósito” ou “Deus quer ensinar algo”, o que pode intensificar a culpa e potencializa a dor.
É nesse contexto de dor que o rabino Harold S. Kushner (1935-2023) escreveu seu livro Quando coisas ruins acontecem às pessoas boas (1988). Longe de ser um tratado teológico abstrato, a obra nasceu de uma dor profunda e pessoal: o diagnóstico e a morte de Aaron, filho do autor, que faleceu aos 14 anos, vítima de progéria (envelhecimento rápido). Diante da perda de uma criança inocente, Kushner se viu obrigado a abandonar as respostas simplistas da religião convencional para encontrar uma fé que pudesse coexistir com a dura realidade da tragédia. Assim, é um livro essencial para quem atua com o cuidado e aconselhamento psicológico ou pastoral.
No Ocidente, a teologia tradicional nos ensina que Deus é bom, onipotente e justo, e que todas as coisas vêm Dele ou por Sua permissão. Contudo, torna-se difícil sustentar esses três atributos simultaneamente (bondade, onipotência e justiça) diante de realidades como doenças genéticas, mortes acidentais de crianças ou de pessoas reconhecidamente corretas e boas.
Kushner, ao analisar a narrativa bíblica de Jó—um homem justo que enfrentou imenso sofrimento—, desenvolve uma interpretação radicalmente diferente do discurso da “justiça punitiva” ou do castigo divino por pecados. Para compreender o sofrimento, Kushner aponta três pontos essenciais de reflexão:
1. Deus é Onipotente mas não interfere nas leis da criação
Para que Deus seja bom e justo, é preciso parar de acreditar na Sua onipotência no sentido de controle absoluto sobre tudo o que acontece. Kushner afirma que Deus criou um mundo maravilhoso, dotado de vida, preciso e ordenado. O que torna este mundo funcional e habitável são as leis da natureza. Embora Deus deseje que os justos vivam vidas felizes, Ele não interfere nessas leis para proteger Seus favoritos, visto que essas leis (como a gravidade e a biologia) são necessárias para a ordem e a previsibilidade do mundo.”
A onipotência de Deus não depende de nossa aprovação ou de nossa moral.
2. A Natureza é Moralmente Cega
Kushner afirma que não é Deus quem causa a tragédia, a doença ou o sofrimento. Ele sustenta que os males são resultados da “aleatoriedade” no universo, podendo ser relacionados ao “caos residual da Criação” — e que não são determinações divinas — ou às leis da natureza, que, moralmente cega, não distinguem entre “bons e maus”. Um terremoto, o câncer, ou um acidente de carro não diferenciam justos de perversos; eles não são “atos de Deus”, mas sim acasos da natureza.
3. O Preço da Liberdade Humana
O sofrimento, argumenta-se, é inerente à liberdade humana – o dom de Deus que nos permite escolher entre o bem e o mal. Deus, ao não intervir para nos impedir de ferir uns aos outros ou de fazer escolhas equivocadas, preserva a nossa humanidade. O autor utiliza eventos como o Holocausto como a derradeira evidência de que a crueldade é uma escolha dos homens, e não um desígnio divino.
Assim, Deus é justiça em seus próprios padrões, mantendo ordem e o equilíbrio possível que sustenta nossa realidade. Não estando limitado às necessidades ou desejos humanos.
Para Kushner, é essencial tirar de Deus a responsabilidade pela tragédia, exatamente para tirar da vítima o peso de achar que está sendo punida. O sofrimento é parte da vida, não é vontade de Deus. Deste modo, a religião e a fé, segundo Kushner, não servem para nos explicar o porquê do sofrimento, mas sim para nos dar a força para suportá-lo. Deus se manifesta não na tragédia, mas na coragem de seguir em frente e na compaixão das pessoas que nos ajudam.
Deste modo, para Kushner Deus não é nosso algoz, mas nosso aliado, é a fonte de força, coragem e paciência para enfrentar a dor, o luto e sofrimento. Para tanto, é fundamental entender que a tragédia não é punição, livrar-se da culpa, é o passo fundamental para podermos evitar as perguntas sem respostas “Por que isto aconteceu comigo? O que fiz eu para merecer isto?” e enfatizar a pergunta mais importante que é: “Agora que isto me aconteceu, o que vou fazer?”.
Kushner nos convida a compreender Deus e ‘perdoá-lo’ por não ser o ser onipotente e perfeitamente controlador que desejamos. E que a maturidade reside em aceitar que a vitória não está na ausência de dor, mas sim na capacidade de perdoar e amar um mundo que, embora menos que perfeito, ainda vale a pena ser vivido.
Este livro aborda profundamente a dor e a visão da religião como um fator protetivo e consolador. Kushner humaniza a dor e aproxima Deus dos que sofrem, à medida que nós mesmos nos humanizamos e nos dedicamos a cuidar e fortalecer aqueles que sofrem, sem julgamento.”
Este livro é essencial para quem compreende a importância da fé, da religião e da espiritualidade como ferramentas no enfrentamento de doenças e perdas.
- Sobre o livro:
- Editora : BestSeller
- Data da publicação : 16 outubro 2023
- Edição : 4ª
- Idioma : Português
- Número de páginas : 192 páginas
- ISBN-10 : 6557122983
- ISBN-13 : 978-6557122983
- Peso do produto : 200 g
- Dimensões : 13.5 x 1 x 20.5 cm
Psicólogo clínico junguiano graduado pela Ufes. Especialista em Psicologia Clínica e da Família pela Faculdade Saberes; especialista em Teoria e Prática Junguiana pela Universidade Veiga de Almeida e especialista em Acupuntura Clássica Chinesa IBEPA/FAISP; com formação em Hipnose Ericksoniana pelo Instituto Milton Erickson do Espírito Santo. É professor e diretor do CEPAES. Atua desde 2004 em consultório particular. Coordenador do Blog do Jung no Espirito Santo (www.psicologiaanalitica.com)



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